O Brasil na estufa
Estiagens mais prolongadas, enxurradas mais intensas, uma seca
sem precedentes na Amazônia, tornados e até um furacão,
fenômeno típico do Caribe, já apareceu por
aqui. Com o aumento da temperatura no planeta, que pode ultrapassar
a barreira dos 2ºC nas próximas décadas, esses
fenômenos climáticos extremos vão fazer parte
da rotina do Brasil. O Rio Grande do Sul é um dos estados
mais afetados pelas mudanças climáticas, alerta o
Greenpeace em relatório recém-divulgado em Brasília.
Por Roberto Villar Belmonte*

alvez
você ainda não tenha reparado, mas as noites estão
mais quentes no Rio Grande do Sul. Entre 1913 e 1998, as temperaturas
mínimas no Estado já subiram 1,4°C, segundo dados
da Agrometeorologia da Ufrgs. Se ainda não se deu conta
disso, provavelmente esteja se perguntando onde foi parar o nosso
inverno, que nos últimos anos aparece com a cara dos meses
de verão. Quem vive no campo com certeza percebeu, no ano
passado, a pior estiagem dos últimos 50 anos. A quebra na
safra da soja, do milho e do feijão foi de 8,5 milhões
de toneladas, com um prejuízo nunca visto de R$ 3,64 bilhões
e 451 municípios gaúchos em situação
de emergência e estado de calamidade.
Em 29 de agosto de 2005, um tornado devastou o município
de Muitos Capões (RS), no mesmo dia em que o furacão
Katrina arrasou Nova Orleans, a capital do jazz nos Estados Unidos.
Coincidência? Talvez. Também no ano passado, um aquecimento
anormal observado no Atlântico Norte transformou o oeste
e o sul da Amazônia, região que detém 20% da água
doce do planeta, em uma espécie de sertão. Lembra
das fotos na imprensa? Quando o assunto é mudanças
climáticas, não precisamos ir muito longe. No final
de março de 2004, um furacão, batizado de Catarina,
causou pânico e destruição em Torres (RS).
Fenômenos como este nunca tinham ocorrido por estas bandas.
Estudos recentes mostram que a Região Sul do Brasil é a
segunda mais favorável à ocorrência de tempestades
capazes de gerar tornados, considerados uma das mais violentas
perturbações atmosféricas. De 1980 a 2003,
ocorreram 43 episódios de tornados em Santa Catarina, causando
um prejuízo de mais de R$ 16 milhões. Em 2006, a
falta de chuva diminuiu o volume de água das Cataratas do
Iguaçu para 300 mil litros por segundo em julho, quando
o normal é 1,3 a 1,5 milhão de litros por segundo.
A visitação ao Parque Nacional de Iguaçu nas
férias de inverno teve uma queda considerável. No
campo, os agricultores paranaenses também estão tendo
prejuízos.
Estes são alguns dos dados que o Greenpeace apresentou no
final de agosto em Brasília (DF) através de um filme
e de um relatório sobre os impactos já observados
do aquecimento global no Brasil. O estudo, chamado Mudanças
do clima, mudanças de vidas, será lançado
em Porto Alegre (RS) no dia 14 de setembro. Os ecologistas documentaram,
através de entrevistas com as comunidades afetadas e cientistas
de renome internacional, os efeitos das mudanças climáticas
na Amazônia, no semi-árido nordestino, na zona costeira
e na Região Sul. O objetivo da entidade ambientalista é denunciar
a omissão do governo brasileiro diante do mais grave problema
ecológico do século XXI.
Cientistas do mundo inteiro – reunidos no Painel Intergovernamental
de Mudanças Climáticas (IPCC) – não
têm mais dúvidas de que as alterações
climáticas que ocorrem em todo o planeta estão sendo
causadas pela emissão de gases estufa – entre eles,
o gás carbônico e o metano. A média da temperatura
do planeta já subiu 0,6°C nos últimos cem anos,
e a concentração de carbono na atmosfera saltou de
280 ppm, antes da era industrial, para 378,9 ppm em 2005 devido à queima
de combustíveis fósseis e à destruição
das florestas tropicais. Por isso as geleiras estão derretendo
e vão aumentar o nível do mar, e os fenômenos
climáticos extremos estão ficando mais intensos e
freqüentes.
Mais calor significa mais energia para tempestades tropicais, furacões
e outros eventos climáticos extremos. De acordo com o relatório
do Greenpeace, alguns estudos mostram que a intensidade dos furacões,
tufões e ciclones tropicais vem crescendo nos últimos
30 anos. O número de eventos, no entanto, manteve-se na
média, na faixa de 80 a 90 por ano. A causa é atribuída
ao aumento das temperaturas do Oceano Atlântico Tropical,
que está 0,5°C mais quente do que há 40 anos.
Para os ecologistas, estes dados mostram que já estaríamos
entrando em uma era em que os extremos climáticos ou se
tornariam mais intensos ou poderiam acontecer com mais freqüência.
A principal bronca dos ativistas do Greenpeace, que no final de
março aportaram um de seus navios – o Artic Sunrise – na
capital gaúcha, é com a destruição
da maior floresta tropical do planeta. A derrubada das árvores
e as queimadas na Amazônia, apesar dos esforços do
Ministério do Meio Ambiente, fazem do Brasil o quarto maior
emissor de gás carbônico do planeta, e também
alteram o clima na Região Sul. Isso cria um círculo
vicioso, pois o lançamento deste CO2 – estimado em
200 a 300 milhões de toneladas ao ano na região amazônica – aumenta
o efeito estufa e o aquecimento global que, por sua vez, facilita
a proliferação do fogo florestal e de novas emissões.
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Durante bilhões de anos,
a presença de vapor d’água, do
dióxido de carbono (CO2), do metano (CH4)
e de outros gases na atmosfera, deu origem ao efeito
estufa, um fenômeno natural que criou as condições
necessárias para o surgimento da vida na Terra
como nós a conhecemos. Sem este efeito estufa,
a temperatura ficaria abaixo dos -17°C e toda
a superfície do planeta estaria coberta de
gelo. A atmosfera terrestre, através desses
gases de efeito estufa, aprisiona parte da energia
do Sol refletida pela superfície do planeta.
O calor desta energia que não volta ao espaço é redistribuído
através das circulações atmosféricas
e oceânicas, e uma parte desta energia é naturalmente
irradiada novamente ao espaço. Quando aumentamos
o efeito estufa, lançando cada vez mais carbono
na atmosfera, o resultado é um planeta mais
quente.
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– Apóie e participe
de iniciativas, atividades e ações
que promovam o combate ao desmatamento da Amazônia.
Compre móveis de madeira certificada.
–
Pressione os governos e as empresas a substituírem
a energia negativa (petróleo, nuclear e grandes
hidrelétricas) por energia positiva (solar,
eólica e pequenas hidrelétricas).
–
Economize energia. Compre aparelhos mais eficientes
(classificação A) e troque as lâmpadas
incandescentes por lâmpadas fluorescentes.
Apague luzes desnecessárias.
–
Utilize o transporte coletivo e a bicicleta quando
possível. Revise o seu carro periodicamente
e use combustíveis de transição
como o álcool e o biodiesel.
–
Evite o desperdício de água. Em áreas
sujeitas a secas prolongadas, armazene água.
O uso de cisternas é uma solução
importante para as comunidades.
–
Exija da sua prefeitura sistemas eficientes de drenagem
urbana, de coleta e tratamento de esgotos, além
do aproveitamento do metano emitido pelos aterros
sanitários.
–
Informe-se sobre as habitações que
aproveitam a água da chuva, geram a própria
energia elétrica, utilizam o aquecimento solar
e a climatização natural.
–
Não plante monoculturas. Faça o reflorestamento
da mata ciliar, na beira dos rios e nas nascentes,
com espécies nativas. Utilize sistemas de
irrigação eficientes.
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Fonte: Greenpeace |
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Como enfrentar as mudanças climáticas
O Brasil pode e deve assumir um papel de vanguarda nesta luta,
segundo o Greenpeace. Além de reduzir as emissões
do país, impedindo a destruição da Amazônia,
investir em eficiência energética e em fontes modernas
e limpas de energia, precisa elaborar uma política para
integrar as ações isoladas que hoje são implementadas
por instituições de pesquisa, universidades e pela
sociedade civil. Até agora, esse assunto só é prioridade
após os desastres. Um exemplo é o Rio Grande do Sul.
O Estado ainda não implantou o Centro Estadual de Meteorologia
Aplicada, em parceria com universidades e empresas públicas,
apesar do projeto se arrastar há vários anos.
“Como o Brasil tem 45% da sua matriz energética baseada em
combustíveis renováveis, o nosso governo não
assume nas negociações internacionais a responsabilidade
de quarto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta. E
tem dado prioridade às oportunidades de lucro com o problema
incentivando o mercado de carbono. Além disso, apesar de
ser obrigação do país, ainda não temos
uma Política Nacional de Mudanças Climáticas
para mitigar e prevenir os efeitos dessas alterações
nas comunidades mais afetadas, e nem um estudo de vulnerabilidade
mostrando as regiões mais sensíveis”, denuncia
Carlos Rittl, coordenador do relatório Mudanças do
clima, mudanças de vidas.
De acordo com o Greenpeace, práticas agrícolas sustentáveis
também precisam ser disseminadas entre os agricultores,
que já estão sofrendo as anomalias climáticas,
principalmente na Região Sul. Novos estudos precisam ser
feitos para possíveis adaptações ao zoneamento
agrícola e redução de riscos no campo. A expansão
da agricultura, alertam os ecologistas, deve ocorrer através
da recuperação de áreas já desmatadas,
sem destruir florestas. Além disso, destaca o relatório,
o sistema de saúde precisa levar em conta a tendência
de aumento e redistribuição geográfica de
doenças infecciosas, como a malária e a dengue. O
Brasil já está na estufa.
Para saber mais, acesse o site
www.greenpeace.org.br/clima.
* O jornalista Roberto Villar Belmonte redigiu para o Greenpeace
o relatório Mudanças do clima, mudanças de
vidas.