
Ciclo de palavras

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solilóquios ou diálogos, é líquido
e certo: córregos tatibitates, riachos silábicos,
cachoeiras do palavreado, lagos e lagoas de expressões,
rios de frases, tudo flui para o oceano da comunicação.
A Terra é oral.
O que da língua escorre, deságua no recôndito
onde nada é dito – o permeável solo do silêncio.
Ali se infiltra, se represa. E dá início a profundos
mananciais vocabulares. Origem de todos os cursos subterrâneos
da linguagem, que vão aflorar onde houver escuta.
Em declarações, discursos, debates. Fontes de poesia.
Banhados de lero-leros, nhenhenhéns, blablablás.
Em explicações, explanações, exposições,
que começam úmidas e terminam secas. Em pororocas
de fofocas. Marulhos e murmúrios de mãos em concha
e conchas em mãos. Profusão de prosa em polvorosa
no preamar de amar. Em correntezas a arrancar troncos etimológicos
dos barrancos do idioma.
| Ilustração:
Edgar Vasques |
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E faz-se imensa bacia, braços de caudalosas conversas e
afluentes influentes – apartes, peraís, senões,
tudo aos borbotões. Que se espraiam pelas praias áridas
da palestra, do pronunciamento, da preleção. Irrigam
as margens ácidas das réplicas e das tréplicas.
Então, da torrencial oratória erudita ao encharcado
disse-me-disse, de tudo o mais que soa e ecoa, muito se evapora.
Do calor da discussão e afogueamento das idéias,
moléculas minúsculas, evaporadas de sentido, sobem
aos céus da desatenção, ocupam o horizonte
do esquecimento.
Assim, formam-se nuvens verbais e proverbiais. São acúmulos
de súmulas e símiles, gotículas de questiúnculas,
volumosos vestígios de verve. Se adensam, quase pensam.
Pesadas de prosódia, desabam seu desabafo.
É
temporal de imperativos, aguaceiro de interjeições,
guasqueada de fonemas ásperos ou loas à toa. Pode
jorrar jarros de juras. Nos alagar no alarido. A renovação
da falação.
