Quanto vale seu voto?
As eleições deste ano trarão um
desafio adicional para a ainda jovem democracia brasileira. Além da escolha
do presidente da República, de novos governadores, senadores e deputados
estaduais e federais, estará em jogo a vitalidade do próprio sistema
democrático. A crise política que dominou o noticiário ao
longo de 2005 alimentou um sentimento de desconfiança e descrédito
em relação aos políticos e à política de um
modo geral. Nos últimos meses, aumentou o volume de mensagens e campanhas,
pela internet, defendendo o voto nulo nas eleições de outubro.
Recentemente, um comercial da MTV criticou não só os políticos
(do governo e da oposição), mas a própria campanha eleitoral,
qualificada de “inútil” e “mentirosa”. O final
deste comercial recomenda à população que ela se abasteça
de ovos e tomates para jogar nos políticos. A mensagem é clara
e sem ambigüidade: toda a política é jogada na vala comum
da mentira.
Por Marco Aurélio Weissheimer

onsiderando
o histórico de interrupções autoritárias
da democracia brasileira, a proliferação destas manifestações é preocupante.
A participação da população na vida
política do país ainda é muito pequena e bastante
restrita somente aos processos eleitorais. A maioria dos eleitores
brasileiros prefere não se filiar a partidos políticos.
Menos de 10% dos eleitores são filiados a algum partido,
segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Do total de
126 milhões de cidadãos aptos a votar nas eleições
gerais de outubro, somente 11,5 milhões (9,18%) estão
filiados a alguma força política. E o problema não é exatamente
a falta de opções. Segundo o TSE, o Brasil tem hoje
29 partidos legalmente registrados. Destes, menos da metade tem
algum grau de representatividade. Os demais correspondem àquilo
que se costuma chamar de legendas de aluguel. Trata-se de pequenos
grupos políticos que são usados pelos partidos maiores
para simular a existência de frentes partidárias mais
amplas, o que garante alguns segundos preciosos na propaganda eleitoral
de rádio e televisão.
Dos sete partidos com mais de 900 mil filiados, o maior é o
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que
tem atualmente as maiores bancadas no Senado e na Câmara
de Deputados, e que conta, oficialmente, com mais de 2 milhões
de filiados. Apesar deste tamanho, o PMDB só chegou uma
vez ao governo, ao final do período da ditadura militar
(1964-1985), graças a uma ajuda do destino. O presidente
eleito Tancredo Neves acabou morrendo antes de assumir, e o cargo
foi ocupado pelo vice José Sarney. Depois disso, o partido
foi se tornando cada vez mais uma confederação de
lideranças regionais que raramente estão de acordo
e não conseguem definir apoio a uma candidatura comum. Este
ano, mais uma vez, após uma pesada batalha interna, o PMDB
não apresentou candidato à presidência, apesar
de liderar as pesquisas de intenção de voto nas eleições
para governadores, em dez estados.
O segundo partido em número de filiados registrados na Justiça
Eleitoral é o Partido Progressista (PP), com 1,27 milhão
de filiados. Nos últimos quatro governos, o PP atuou sempre
como linha auxiliar de quem está no poder, independentemente
de sua orientação política. O ranking partidário,
em número de filiados, mostra como o sistema político
brasileiro ainda guarda estreita relação com o período
da ditadura. Os dois maiores partidos são os sucedâneos
daqueles únicos que eram permitidos no regime militar: MDB
e Arena. Em terceiro lugar, com 1,1 milhão de filiados,
aparece o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que esteve
no poder com Fernando Henrique Cardoso no período entre
1995 e 2002. Hoje, o PSDB lidera as pesquisas para governador em
seis estados. E, em quarto lugar, vem o Partido dos Trabalhadores
(PT), atualmente no poder. O PT foi o partido cujo número
de filiados mais cresceu desde a última eleição
geral, em 2002, passando de 828 mil para 1,05 milhão.
Mas, se cresceu em número de filiados, o PT perdeu força
nas ruas, onde sua militância sempre fez diferença
nas eleições passadas. Com a conquista de vários
governos, em especial o federal, seus melhores quadros foram trabalhar
na administração pública, e o partido sofreu
um processo de burocratização e perda de vitalidade.
A crise política do “mensalão” e algumas
medidas do governo Lula (como a Reforma da Previdência) acabaram
provocando um pesado desgaste junto à base social do partido.
O episódio da expulsão de parlamentares, que se posicionaram
contra a Reforma da Previdência, culminou com a formação
de um novo partido, o P-Sol (Partido Socialismo e Liberdade), que
tem na senadora Heloísa Helena (AL) uma das principais novidades
desta campanha eleitoral. A eleição de 2006 definirá com
maior clareza o futuro do PT como partido de esquerda e as chances
do P-Sol capitalizar maiores contingentes de descontentes, que,
apesar de todos os problemas, permanecem no PT.
O quinto lugar no ranking partidário é ocupado pelo
Partido da Frente Liberal (PFL), com 1,02 milhão de filiados.
Estruturado principalmente na região Nordeste, o PFL, de
modo similar ao PMDB, ocupa um lugar de coadjuvante na política
nacional, funcionando como linha auxiliar do PSDB nos últimos
12 anos. O partido lidera as pesquisas de intenção
de voto para governador em quatro estados. O sexto lugar é ocupado
pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), com 957 mil
filiados, mas pouca expressão nacional. O PDT lançou
candidato próprio à presidência da República,
o senador Cristóvam Buarque (DF), mas ele não vem
conseguindo superar a casa do 1% nas pesquisas. Outros partidos
formam a base política do atual governo, como o Partido
Socialista Brasileiro (PSB) e o Partido Comunista do Brasil (PC
do B), ou estão aliados à oposição
de centro-direita, como o Partido Popular Socialista (PPS, ex-Partido
Comunista Brasileiro) e o Partido Verde (PV). Finalmente, o Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Liberal (PL) costumam
formar, juntamente com o PP, a base de apoio de qualquer governo,
segundo as vantagens que possam obter. E são justamente
estas as legendas com o maior número de parlamentares envolvidos
nos recentes escândalos de corrupção.
Esses escândalos alimentaram fortemente a desconfiança
da população em relação à classe
política. Mas não só isso. Além da
desconfiança, as primeiras pesquisas qualitativas realizadas
no início da campanha eleitoral apontam também para
um relativo desinteresse da população. Haveria, portanto,
um misto de desconfiança e apatia em relação
ao processo eleitoral, alimentado também pela cobertura
midiática. O início da propaganda eleitoral gratuita
de rádio e televisão foi recebido com uma profusão
de artigos de opinião, charges e comentários negativos
em relação à sua utilidade. Um dos mais contundentes
foi um comercial produzido pela MTV, do Grupo Abril, que qualificou
a campanha eleitoral na TV como “inútil e mentirosa”,
recomendando à população que se munisse de
ovos e tomates para jogar nos políticos e em suas promessas.
Ninguém escapa da crítica demolidora: nem governo,
nem oposição. Toda a política é jogada
na vala comum da mentira e da inutilidade.
A política não traz nada de bom?
Os discursos irados contra os políticos e a política,
que afirmam que nada de bom é feito por eles para a sociedade,
muitas vezes vêm acompanhados por uma boa dose de desinformação.
Se, por um lado, os casos de corrupção e as promessas
não cumpridas são fenômenos reais que ajudam
a desgastar a imagem da política, por outro, muitos avanços
são obtidos, com impacto real na vida da população.
Um exemplo. Os gastos com saúde e educação
cresceram no período entre 1999 e 2002 tanto nos estados
quanto nos municípios, segundo o estudo “Despesas
Públicas por Funções – 1999-2002”,
elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). Entre as 27 unidades da Federação, os gastos
com educação saltaram de 14% no total das despesas
em 1999 para 16% em 2002. No caso da saúde, o aumento foi
de 6% para 9%.
No caso dos municípios, saúde e educação,
foram as classes de despesas que mais ampliaram sua fatia no total
de todas as despesas. Em 1999, gastos com saúde correspondiam
a 18% de tudo o que era gasto pelos municípios, e em 2002
esse percentual avançou para 22%. No caso de educação,
os gastos subiram de 18% para 21% no período. Segundo o
IBGE, esses aumentos são explicados pelo estabelecimento
em legislação de percentuais de gastos obrigatórios
vinculados às receitas. A Constituição determina
que os estados vinculem 25% das receitas de impostos assim como
das receitas para a educação. Os municípios
também são obrigados a vincular 25% das receitas
resultantes de impostos, incluindo transferências, para a área.
Além disso, uma emenda constitucional de 2000 prevê que
7% das receitas municipais e estaduais sejam aplicadas em saúde
e um acréscimo de 5% sobre o montante empenhado pelo Ministério
da Saúde.
Nos anos seguintes, até 2004, os percentuais previstos para
estados e municípios deveriam elevar-se até atingir
12% das receitas estaduais e 15% das receitas municipais. Além
do crescimento de participação, também houve
expansão dos valores dos gastos. Segundo Dione de Oliveira,
gerente de administrações públicas do IBGE,
no âmbito estadual, por exemplo, os valores das despesas
com saúde tiveram um crescimento anual médio de 13%
em termos reais. Já os gastos com educação
tiveram um incremento de 7% em média ao ano na mesma base
de comparação. Esses números mostram que não é correta
a afirmação de que “a política não
serve para nada”. Apesar de todos os problemas – e
eles não são poucos, é verdade –, importantes
decisões são tomadas no dia-a-dia dos governos e
dos parlamentos que acabam tendo repercussão positiva na
vida diária das pessoas. Mas a percepção que
acaba predominando junto à opinião pública é aquela
ditada pelas figuras do mensalão, das sanguessugas, etc.
Juventude quer participar mais da vida do país
O cenário é de descrédito. Mas diversas pesquisas
indicam que um setor fundamental na formação da opinião
pública, a juventude, quer participar mais. Segundo levantamento
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), houve um aumento de 49,3%
nos títulos de adolescentes com 16 e 17 anos, o que representou
um acréscimo absoluto de 17 milhões de eleitores
nesta faixa etária para esta eleição. Uma
outra pesquisa publicada pela Unesco e pela OEI – Organização
dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência
e a Cultura mostra que cerca de 69% dos jovens de 15 a 29 anos
acreditam que o voto pode mudar a situação do país,
e que 66,6% não estão de acordo com a decisão
de não votar nas eleições. Um outro dado reforça
essa tendência. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha,
a faixa etária entre 16 e 24 anos apresenta o menor índice
de intenção de voto nulo e não sabe em quem
votaria se a eleição fosse hoje. Se tomada a pesquisa
do Instituto Datafolha, esses índices ficam em 5%, contra
9% no grupo de pessoas entre 35 e 44 anos.
Outros levantamentos indicam que a juventude não é avessa à participação
em grupos e atividades coletivas. Uma pesquisa realizada pelo Ibase
e pelo Instituto Polis constatou que 28,1% dos jovens entrevistados
participam de alguma forma de uma atividade em grupos. Diferente
do que ocorria em um passado recente, o movimento estudantil perdeu
atração. Hoje as principais atividades organizativas
se dão em ambientes e organizações ligadas à religião
(42,5%), ao esporte (32,5%) e à arte e cultura (26,9%).
Esse grupo representa cerca de 20% da população brasileira
e pouco mais de 21% do eleitorado. Os jovens entre 15 e 24 anos
somam hoje 34 milhões de pessoas e 26,5 milhões de
votantes para as eleições de outubro. Considerando
a faixa etária de 15 a 29 anos, esse número cresce
ainda mais, podendo atingir perto de 30% da população.
Um outro dado importante: segundo dados do Instituto Datafolha,
38% das pessoas entre 16 e 24 anos ainda não decidiram em
quem votar, percentual que cai progressivamente à medida
que a faixa etária aumenta, chegando ao índice de
18% no grupo de 60 anos ou mais.
O cenário eleitoral para o Planalto
Com o início da propaganda eleitoral no rádio e na
televisão, começa a se consolidar com mai-or clareza
o cenário da disputa à presidência da República.
As últimas pesquisas reforçaram o favoritismo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para vencer a
disputa ainda no primeiro turno. O principal adversário
de Lula, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB),
corre contra o relógio para tentar diminuir a distância.
Para tanto, promete manter e ampliar o programa Bolsa Família,
uma das principais armas de Lula para a reeleição,
aplicar um “choque de gestão” no país
e também um “choque de ética”. Nas primeiras
semanas de campanha, esse discurso ainda não havia causado
grande impacto junto à opinião pública. A
novidade mesmo é a senadora Heloísa Helena, que vem
capitalizando o voto de tradicionais eleitores de Lula e também
de setores da classe média que não enxergam Alckmin
como uma alternativa. Os demais candidatos não vêm
conseguindo ultrapassar a casa do 1% nas pesquisas.
As pesquisas de opinião pública indicam que segurança,
geração de emprego, saúde e educação
são os temas que mais interessam à população.
Mas a campanha eleitoral corre o risco de não propiciar
um debate mais aprofundado sobre tais temas. O favoritismo de Lula,
reforçado a cada pesquisa, tende a empurrar as candidaturas
de Alckmin e Heloísa Helena para a adoção
de um discurso mais virulento contra o governo e o PT no tema da ética.
A indefinição sobre a linha a ser adotada já gerou
inclusive um princípio de crise na campanha de Alckmin.
O PFL, principal aliado do PSDB, defendeu que, desde o início
dos programas eleitorais no rádio e na televisão,
se adotasse um discurso associando Lula e seu partido ao mensalão
e à corrupção. Os coordenadores da campanha
de Alckmin não concordaram com essa opinião e adotaram
uma linha de apresentação do candidato e de suas
realizações. Mas as pesquisas conspiram contra essa
postura e o tom tende a aumentar no decorrer das semanas. Até a
primeira quinzena de agosto, quem vem batendo mais forte em Lula é a
candidata do P-Sol, o que já era esperado.
Como conhecer e fiscalizar os candidatos
O debate sobre o tema da ética servirá como termômetro
para avaliar o amadurecimento da sociedade brasileira. Após
meses de intenso bombardeio midiático em torno do problema
da corrupção, a população terá a
oportunidade de dar uma resposta aos políticos envolvidos
em escândalos com desvio de dinheiro público. Todos
os candidatos concordam com a urgência da realização
de uma Reforma Política no início de 2007. A concretização
(ou não) desta reforma já será um bom critério
para que a população cobre coerência de seus
candidatos. E ninguém poderá dizer também
que votou em um candidato envolvido em escândalos sem saber.
Além da extensa cobertura na mídia, há diversos
sites na internet que listam o nome dos políticos citados
em denúncias. Um deles é o Transparência Brasil
(
www.transparencia.org.br), que disponibiliza gratuitamente um
cadastro com o histórico de todos os candidatos que buscam
reeleição à Câmara dos Deputados, e
mais ex-ministros, ex-senadores, ex-governadores e ex-prefeitos
de capital que tentam eleger-se deputados federais.
Todos
os candidatos ao Planalto (por ordem alfabética) |
|
Cristóvam Buarque (PDT)
| Geraldo Alckmin |(PSDB)
Heloísa Helena (P-Sol) |José Maria
Eymaiel (PSDC)
Luciano Bivar (PSL) | Lula (PT) | Rui Pimenta (PCO) |
|