A psicopedagoga argentina Alicia Fernández tornou-se uma
referência para psicólogos, pedagogos e psicopedagogos
de
diversos países. Suas abordagens – em livros e palestras – sobre
autoria do pensamento e modalidades do conhecimento
enfrentam as causas mais comuns dos traumas infantis e
põem em xeque as relações entre professores,
pais, instituições
de ensino e poder público. Alicia mantém permanente
intercâmbio com profissionais de Psicopedagogia brasileiros
desde os anos 90, quando criou o Espaço Psicopedagógico
de Buenos Aires (Epsiba), centro de referência que, devido à troca
de experiências com profissionais e estagiários
brasileiros,
foi rebatizada de Espaço Psicopedagógico Brasil e
Argentina.
Em 40 anos de atuação completados em julho
deste ano, ela já publicou no Brasil os livros A inteligência
aprisionada, A mulher escondida na professora,
Os idiomas do aprendente e
Psicopedagogia em psicodrama (Artmed); e O
Saber em Jogo (Vozes). Momentos antes de
participar do Simpósio de Educação A autoria
no processo de aprendizagem e a construção
de uma escola inclusiva, promovido
pelo curso de Pedagogia do UniRitter,
em Canoas, de 15 a 17 de julho, ela
falou ao Extra Classe sobre as
experiências vivenciadas no
atendimento psicopedagógico
a crianças e suas
famílias. “Vivemos numa sociedade
hiperativa e desatenta às necessidades básicas e à
singularidade das pessoas.
No mundo todo há uma
quantidade absurda de crianças
sendo medicadas, tomando
drogas para que
prestem atenção”, afirma.
Alicia está trabalhando
em dois novos livros,
La atencion atrapada
e outro, ainda sem
título, que vai abordar as
primeiras escritas, em
que investiga onde os humanos
aprendem a escrever
e a ler.
Por Gilson Camargo
Extra Classe – A senhora afirma
que a sociedade da informação
também é a da falta de autonomia
do pensamento. Por quê?
Alicia Fernández – A autoria do
pensamento tem hoje uma importância
muito maior do que no passado
porque a sociedade atual exclui
cada ser humano, inclusive
professores e alunos, de sua característica
mais singular: a possibilidade
de pensar por conta própria,
de ser autor dos seus próprios pensamentos.
Isso não tem nada a ver
com propriedade privada. Autor é aquele que faz, diz, que se faz responsável
por aquilo que produz e
pela posição que assume diante dos
demais.
EC – Como o professor pode
estimular o pensamento autônomo?
Alicia – Com poucas palavras.
Pode possibilitar
essa autonomia
necessária, primeiro,
promovendo
as perguntas
necessárias. Os professores pouco trabalham
com a questão das perguntas,
esquecem que de uma pergunta
surge outra e mais outra e ele
pode, justamente, conseguir que
cada um de seus alunos lhe resulte‘
interessante’, torne-se nem melhor
nem pior, mas alguém interessante:
digno de interesse. A melhor
intervenção é a mais simples.
O que interessa não é principalmente
o que o aluno falou, mas o
fato de ele se expressar. Aí abre um
espaço entre professor e aluno em
que as coisas se tornam ‘pensáveis’,
não apenas ‘pensadas’.
EC – O que ele precisa para
atender bem o aluno?
Alicia – O professor também
precisa ser escutado, pois é ele
quem recebe, diariamente, todos
os problemas da sociedade. As angústias
das famílias e as demandas
da sociedade são despejadas sobre
os professores não só pelas crianças
que estão diante dele. O professor
está sozinho diante de 40
alunos e precisa fazer mais do que
apenas dar conteúdo. Por isso, precisamos
saber quais as angústias
desse professor. Trabalhamos muito
com técnicas psicodramáticas,
que trazem à tona essas angústias.
Eles não precisam alguém de fora
dizer: vocês têm que fazer isto
e isto... É importante organizar
grupos de reflexão e de
escuta que dêem suporte
para que o professor
possa ir além dos
conteúdos. Precisam
de alguém
que saiba escutar.
Foto: René Cabrales
EC – Como a sociedade impede
as pessoas de pensar por conta própria
e qual o papel da Psicopedagogia
para estimular essa autonomia?
Alicia – Para se promover possibilidades
de aprendizado é preciso
de tempo. Nossos diagnósticos
psicopedagógicos precisam desse
tempo, não se encontra a resposta
rapidamente. É plausível que diagnósticos
feitos com pressa com vistas
a resultados imediatos tratem as
crianças muito ativas, muitos interessantes,
que estão além dos conteúdos,
do mesmo modo que alguém
que tem um problema psicológico,
neurológico ou psicopedagógico.
Não podemos homogeinizar
tudo. Devemos atender aqueles
que não se interessam, não se entusiasmam,
nem estão investidos do
desejo de brincar, de aprender e de
interagir. Estamos preocupados com
as drogas ilegais, mas eu penso que
devemos começar a nos preocupar
com as drogas legais, porque são
aquelas que nós estamos difundindo.
Temos uma sociedade dos adultos
que não se pergunta, que não
se dá tempo de escutar o outro.
EC – A falta de critérios no diagnóstico
seria uma razão para o uso
indiscriminado de medicamentos por
crianças em idade escolar?
Alicia – Vivemos uma epidemia
de supostas síndromes que se colocam
sobre as crianças, sobre os
adolescentes. São as síndromes de
déficit de atenção, de
hiperatividade. Temos uma quantidade
absurda de crianças sendo
medicadas, tomando drogas
para que prestem atenção. Santiago
do Chile, Buenos Aires, São
Paulo, são cidades onde temos pesquisa.
Nas grandes cidades, nas
metrópoles dos Estados Unidos, se
dá esse fenômeno muito grave. Temos
escolas com 20 crianças de seis,
sete anos de idade sendo medicadas
para “curar” essas supostas
síndromes. Nos meus livros eu venho
denunciando isso: estamos
numa sociedade hiperativa e desatenta,
que medica aquilo que produz.
Um mundo adulto hipe-rativo
e desatento às necessidades básicas, à
singularidade das pessoas. É claro que as crianças e os jovens
são as primeiras a externar as problemáticas
dos adultos. Em vez de
nos perguntar o que está acontecendo
com nossas crianças, com
nossos adolescentes, estamos dando
remédios para essas crianças ficarem
quietinhas, sentadinhas em
frente à televisão e ao computador,
amarradas com cordas invisíveis,
com uma camisa de força
química.
EC – Que iniciativas cabem aos
pais e aos educadores para reverter
essa tendência?
Alicia – Os pais são os primeiros
ensinantes. Mas eles também
estão submetidos a todas essas características
da sociedade. Por isso,
a escola não pode delegar aos pais
toda a responsabilidade como se
eles fossem os únicos responsáveis.
Há, entre a escola e as famílias, os
profissionais psicólogos e psicopedagogos.
Mas acontece um círculo
de queixas que é muito nocivo.
A escola se queixa da família,
a família se queixa da escola, os psicólogos
se queixam da família e da
escola e todos colocam o problema
em cima da criança. Todos têm o
seu grau de responsabilidade. O
professor, muito mais que um transmissor
de informações, é um agente
subjetivante: é um dos construtores
do sujeito humano. Tem uma
grande possibilidade de colocar
aquela criança diante de outras experiências,
diferentes daquelas que
a gente têm encontrado, experiências
que têm vínculos ‘ensinantes’ e ‘aprendentes’ diferentes
da família.
Se você tentar lembrar de uma
situação na escola que o tenha
marcado muito, vai lembrar do professor
e não do conteúdo escolar.
O ser humano nasce inteligente,
mas a inteligência se constrói na
relação com os outros, se dá à medida
que os adultos consideram a
criança, acreditam que ela aprenderá.
Não aprendemos a andar porque
temos pernas, mas porque outras
pessoas nos ensinaram, estimularam
e acreditaram que iríamos
andar. As palavras crer e criar têm
a mesma raiz etimológica.
EC – No seu livro A mulher escondida
na professora, a senhora trata
da questão de gênero na Educação
e diz que a maioria dos meninos tem
problemas de aprendizagem. Por quê?
Alicia – Esse livro comecei a
escrever a partir de muitas circunstâncias,
mas de uma que me chamava
muito a atenção: a maioria
das crianças que chegavam nas
consultas era meninos. Numa escola,
a maioria dos docentes é mulher.
Decidi pesquisar o que estava
acontecendo para provar que o
aprendizado é uma questão de
identificação. Ocorre que na escola
os meninos encontram como figura
identificatória uma maioria de
mulheres. Com isso, têm que fazer
um trabalho muito complexo para
gostar de aprender, investir dignamente.
O aprender vai deixando
de ser interessante. Já os problemas
de aprendizagem das meninas
ficam escondidos porque, culturalmente,
na maioria dos países, ser
uma boa aluna é ter boa letra, ser
recatada, não se manifestar. Os
obstáculos são diferentes. O homem,
na medida em que assume
a cultura da agressividade masculina,
fica aprisionado. Tem a
obrigação de ser aquele que, mesmo
sem estudar, tem de triunfar.
EC – A atenção aprisionada (La
atención atrapada, livro ainda não
lançado) fecha a trilogia com A
mulher escondida na professora
e A inteligência aprisionada. A
senhora também está escrevendo um
livro sobre experiências das crianças
com a escrita. Quando e onde o
ser humano aprende a escrever?
Alicia – O primeiro livro Inteligência
aprisionada dá conta de uma
proposta de trabalho interdisciplinar
com as famílias, que analisa
a própria família e os vínculos
entre os irmãos. Essa modalidade
de diagnóstico envolve um
trabalho além da clínica, junto
aos hospitais públicos gerais de
Buenos Aires e da região metropolitana. É
interdisciplinar e
interinstitucional. Nós entendemos
que não é a criança e a família que
devem ir de cá para lá, de um especialista
a outro. O professor encaminha
ao médico, o médico ao
fonoaudiólogo, este ao psicólogo...
Estou trabalhando em dois novos
livros, La atención atrapada e outro,
La escritura en la piel, que vai
abordar as primeiras escritas, ou
seja, investiga onde os humanos
aprendem a escrever e a ler. É a
questão do corpo. O tema da primeira
infância é fundamental. É a fase em que se aprender a escrever
tem a ver com os primeiros
aprendizados, com a inserção no
vínculo corporal. O primeiro lugar
de escrita é a própria pele,
onde ficarão para sempre as marcas
das carícias ou dos golpes recebidos.
Para o envio de cartas,
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