A inauguração da pedra fundamental da
nova fábrica da Aracruz em Guaíba, dia 27 de agosto,
aprofunda o
processo de transformação do Rio Grande do Sul em
um grande produtor de eucalipto e celulose. Os protestos de
entidades ambientalistas e movimentos sociais não vêm
sendo capazes de deter a invasão dos chamados
“desertos verdes” no estado. A ofensiva econômica
e publicitária das grandes empresas do setor é fortíssima.
A imensa maioria da imprensa gaúcha já se perfilou
ao
lado da celulose apresentando-a como um caminho para
a redenção econômica do RS. Os problemas ambientais
e legais levantados contra a expansão da monocultura
de eucalipto (e outras espécies utilizadas para a produção
de celulose) são tratados de forma secundária, como
efeitos colaterais aceitáveis em nome de uma promessa
de progresso futuro.
Artes:
Rodrigo Vizzotto/D3 Comunicação
Jornalista relata o preço da devastação
as
há uma exceção midiática nesta louvação
à
celulose. No final de agosto, o
jornalista Lúcio Vaz, do jornal Correio
Braziliense, publicou a terceira reportagem da
série O preço da devastação, que
apresenta os
impactos econômicos, sociais e ambientais da
produção de celulose no país. Nesta nova
matéria, ele mostra como, com o apoio do
governo da Bahia e de prefeitos do sul do
estado, as papeleiras Veracel, Suzano e
Aracruz ocuparam cerca de 300 mil hectares
com plantações de eucaliptos nas últimas
duas
décadas, gerando impactos ambientais negativos.
A Veracel, por exemplo, informa a reportagem,
sofre ações por irregularidades na
á
rea ambiental e por supostas práticas de
corrupção. Em julho deste ano, a Justiça
Federal
anulou as licenças concedidas à empresa
na implantação de sua base florestal.
Além disso, determinou a retirada de 47 mil
hectares de eucaliptos, com a recomposição
da Mata Atlântica, e multou a empresa em
R$ 20 milhões.
A condenação da Veracel foi resultado
de uma denúncia feita em 1992 por entidades
como o Greenpeace e o SOS Mata Atlântica
que registraram a derrubada de 64 hectares
de vegetação nativa com o uso de correntes
amarradas a tratores. A matéria do
Correio Braziliense relata: “O juiz federal
Márcio Mafra Leal, de Eunápolis, município
onde está instalada a fábrica da Veracel,
entendeu que as plantações de eucaliptos
deveriam ter sido precedidas de um Estudo
de Impacto Ambiental (EIA), com o respectivo
Relatório de Impacto Ambiental (Rima).
O plantio em quantidades espetaculares de
eucaliptos não só elimina a Mata Atlântica, mas também altera o quadro paisagístico
da região”.
O juiz denunciou que não houve avaliação
de impacto ambiental na região e que
toda a abordagem foi feita sob o ângulo da
empresa e de suas estratégias. Ele qualificou
o parecer do Centro de Estudos Ambientais
(CRA), que embasou as licenças, como uma
cópia do estudo feito pela própria Veracel.
As reportagens publicadas no Correio
Braziliense também mostram como as empresas
de celulose distribuíram R$ 8,6 milhões
em doações eleitorais a políticos nas últimas
três eleições. Lúcio Vaz percorreu
cerca de
7,5 mil quilômetros, registrando as conseqüências
da implantação de quase 1 milhão de
hectares de eucaliptos no Rio Grande do Sul,
Espírito Santo e Bahia, além dos plantios no
Uruguai.
Consenso midiático
Não se vê nada parecido com essas
matérias na imprensa gaúcha. Por aqui,
o que aparece é um grande consenso
midiático em defesa das empresas. O que
aparece também é um grande volume de
anúncios publicitários destas empresas
nos meios de comunicação mais variados.
Resta saber se essa relação
simbiótica entre
empresas de celulose e
imprensa não se
transformará em
uma relação parasitária
para o futuro
do meio ambiente
gaúcho.
Agronegócio
quer flexibilizar leis ambientais
Nos dias que correm todos são a favor
do meio ambiente e repetem discursos peremptórios
sobre a importância do desenvolvimento
sustentável. O que se vê na
prática, porém, é uma crescente
flexibilização da legislação
ambiental em
nome do lucro e da promessa de prosperidade.
Além do caso da celulose, o
agronegócio como um todo mobiliza-se para
combater o que chama de “rigidez” das leis
ambientais.
No dia 26 de agosto, parlamentares e
entidades ligadas ao agronegócio solicitaram
ao ministro do Meio Ambiente, Carlos
Minc, uma completa revisão do Decreto
6.514, de 22 de julho de 2008, que torna a
Lei de Crimes Ambientais mais rígida. Em
audiência com o ministro, representantes
do agronegócio entregaram uma carta expondo
o que chamaram de “reflexos negativos
da norma para a atividade econômica
nacional, como a redução de área
produtiva e da produção de alimentos,
da renda
do produtor e da geração de empregos”.
E propuseram a criação de um Grupo
de Trabalho para a “revisão” do
decreto e
da legislação ambiental brasileira. A
idéia é
flexibilizar a legislação, considerada
demasiadamente
restritiva pelo agronegócio.
Um dos líderes deste grupo, o deputado
federal gaúcho Luis Carlos Heinze
(PP), defendeu o “aprofundamento” das
discussões sobre as leis ambientais vigentes
no Brasil, com o objetivo de apresentar,
em 120 dias, “propostas equilibradas entre
a preservação ambiental e a produção
agropecuária”.
Tudo isso vem acontecendo num ambiente
de absoluta normalidade. O discurso
em defesa do meio ambiente cada vez mais é
apenas... um discurso.
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