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À
espera de um milagre
Dinah Quesada Beck*
o
deparar-me com a reportagem da revista Veja, publicada
em 20 de agosto, a qual abordava as condições nas
quais
se encontra a Educação em todo o Brasil, inúmeros
foram
os questionamentos que fiz diante de tamanhas aberrações
ali
institucionalizadas. Li, reli e retornei a determinadas partes
do
texto que causaram maior impacto devido ao seu conteúdo
falseado,
duvidoso e pouco produtivo. De um modo geral, posso
afirmar que através de frases equivocadas e vergonhosas
generalizações
sobre a Educação brasileira, sem o menor respeito à sua
história e constituição, foram apresentados
dados de pesquisa
estrategicamente posicionados, analisados e confrontados.
Argumentações maldosas de realidades educacionais
distintas,
e pelos profissionais de Veja desconhecidas, foram produzidas
e tecidas, entre discursos e mais discursos que se compõem
nessa trama de fios. Infelizmente essas severas palavras
justapostas, por algum tempo, ficarão presentes na mente
das
pessoas que leram a matéria. Muitos são os pensamentos.
Após algumas anotações, fiz questão
de torná-las conhecidas
a todos. E, em meio a meus argumentos, mal podia acreditar
que aquele material seria lido por milhares de pessoas. Leitores
que, por desconhecimento ou crença que neste veículo
de comunicação se encontrariam muitas verdades, estariam
a
pensar nas condições nas quais se dá a formação
docente no
Brasil, no modo como os professores preparam e ministram suas
aulas e “o ponto que chegou” a Educação
brasileira.
Talvez, o que tenha causado maior incômodo e deixado um
profundo desgosto e repúdio durante a leitura foi o fato
de perceber
que estes profissionais sentem-se preparados para fazer
pesquisa educacional e articular os dados obtidos nessas pesquisas.
Como professora e estudiosa no campo da Educação,
sei
que essa tarefa não é fácil. Esse trabalho,
definitivamente, não
se dá pautado na espera por milagres. Dar força e
veracidade teórica às pesquisas desenvolvidas exige
preparo e constante
aproximação com os aportes teóricos e a realidade
estudada,
além do anterior delineamento dos modos através do
quais os
dados são coletados, para adiante poder selecioná-los
e analisálos,
com profundo respeito aos sujeitos participantes da pesquisa,
buscando apresentar, por fim, respostas múltiplas, provisórias
e com argumentações sólidas e convincentes.
Incomoda-me
o fato de Veja fazer esse trabalho, e fazê-lo de modo apurado
e
equivocado, usando um espaço que não é seu.
Desejo, por fim,
que as mesmas inquietações em mim produzidas possam
também
mover outras tantas pessoas que leram a matéria e que
essas sejam porta-vozes e transmitam que dados sobre a Educação
no país não se buscam em lugares-comuns como a Veja.
Não esperem por milagres. Busquem concretizar suas propostas.
* Professora do Ensino Fundamental
Mestre em Educação – UFPel
Doutoranda em Educação/PPGE/FACED/UFRGS

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