CERÂMICA
Arte
feita de barro
O primeiro curso superior em Cerâmica do Brasil é gaúcho.
A responsável pela
sua criação, há 26 anos, no Instituto de Artes
da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, é uma artista plástica e professora:
Maria Annita Tollens Linck,
ou simplesmente Marianita. “Cerâmica é barro.
Nós somos feitos de barro e
vamos virar pó, um elemento simples desta matéria-prima”,
diz ao explicar
sua preferência por este material
Por Dóris Fialcoff

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1983, a ceramista e então
professora de Cerâmica do Instituto de Artes (IA) da
Ufrgs , Maria Annita Tollens Linck, viu o
seu sonho e a sua batalha serem concretizados:
a criação do primeiro curso superior em Cerâmica
como Arte e Expressão
do país. Segundo ela, até então
apenas havia cursos de engenharia cerâmica voltados à
indústria.
Tudo começou com o
convite feito pelo IA, em
1968, para que ela lecionasse
a cadeira da disciplina de
Cerâmica. “Comecei a
pesquisar para poder dar
aulas, tudo era novidade,
pois eu não tinha professor.
Fiz muitas amostras, fui a
uma fábrica de esmaltes em
São Paulo e realizei curso com
eles”, relembra a artista. “Se
em outros países a cerâmica
estava adiantada, eu não
podia ficar ali no ‘be a bá’”.
Porém, para Marianita – como assina suas
obras –, ter apenas uma disciplina tornava impossível
ensinar o necessário. Com muita insistência,
pediu o dobro do horário e acabou conseguindo
quatro matérias. “No fim, tínhamos
oito cadeiras”, comemora. “Tiramos a cerâmica
do lugar comum e a colocamos onde devia
estar, ou seja, como componente da arte”.
A galerista Tina Zappoli, de Porto Alegre,
entende como dupla a importância de
Marianita para a arte gaúcha: “Além do trabalho
como artista, que é de uma excelência difícil
de se ver no meio, foi ela quem elevou a
cerâmica à categoria de arte trazendo para o
IA a possibilidade do aluno se formar em Cerâmica”,
evidencia Tina.
Na opinião do artista visual Círio Simon,
doutor em História do Brasil, Marianita ainda
não foi devidamente estudada, reconhecida
e, muito menos, formou-se
uma consciência coletiva a
respeito de sua obra, do seu
magistério e das contribuições
como artista. “A sua
cerâmica, a ação pedagógica
e a permanente atuação
coletiva, por meio de sua
arte, poderão conferir outro
grau de identidade ao sulriograndense”,
afirma
Simon.
APRENDIZ – A artista
plástica Tânia Zara Barreto
Moreira foi aluna de
Marianita e também o seu
braço direito, tanto que em
1991, quando a mestra se
aposentou, assumiu como
coordenadora do curso de
Cerâmica. “Eu fiz vestibular para Pintura e até então
nunca tinha tocado no barro. Mudei para Escultura pela possibilidade
de fazer Cerâmica,
e a Marianita foi bastante responsável
pela escolha”, revela Tânia, afirmando ainda
ter acompanhado de perto a luta para a implantação
do curso de Cerâmica. “Ela foi muito
guerreira, principalmente contra os que teimavam
em dizer que cerâmica não era arte”,
elogia, finalizando: “Marianita é uma rocha,
cujo interior guarda a mais fina e delicada
porcelana”.
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