TECNOLOGIA
Conexão
Ruanda - Porto Alegre
Se ainda há quem veja com desconfiança a parceria
entre Educação e internet, há quem já esteja
festejando seus frutos.
O destino ao alcance de um ‘clic’ não é uma
frase de efeito para filmes de matinê. É, sim, o resultado
de um trabalho que
vem sendo desenvolvido e que já começa a mudar a
perspectiva de mundo de crianças de baixa renda e que não
têm a
possibilidade de contato direto com o exterior ou de formação
em escolas especializadas. A tecnologia aplicada ao ensino
não só atrai novamente as crianças para as
salas de aula como as tem levado a níveis de conhecimento
e troca de
experiências inimagináveis há alguns anos.
Mais do que isso, os computadores são capazes de colocar,
por exemplo, na
mesma via expressa virtual crianças do Sul do Brasil e da
geração pós-genocídio em Ruanda, todas
em busca de um
mesmo objetivo, conhecimento.
Por Caren Mello

rogramas
antes restritos a escolas particulares
oportunizam a crianças de comunidades
carentes o contato com as mais sofisticadas
das tecnologias. Um projeto piloto
teve espaço na Escola Estadual Luciana de
Abreu, em Porto Alegre, há cerca de dez anos.
A partir de um convênio com o governo federal,
que havia lançado o programa Um Computador
por Aluno (UCA), juntamente com a
Ufrgs, hardwares e ferramentas como a internet
foram levadas para dentro da sala de aula.
A experiência na escola motivou a professora
Silvia Kist a romper fronteiras. Depois de
defender a dissertação de Mestrado sobre aquela
vivência, Silvia rumou para Ruanda, na África,
integrando a ONG norte-americana One
Laptop Per Child (OLPC). A ONG, que leva a
países pobres computadores desenvolvidos pelo
Massachussets Institute of Tecnology (MIT),
acredita no uso da tecnologia para o desenvolvimento
cognitivo nas regiões menos favorecidas.
A pedagoga está há um ano em Kigali, capital
do país, ajudando na formação de jovens,
uma vez que o genocídio ocorrido há 15 anos
destruiu o país. No extermínio, grande parte
dos profissionais das mais diversas áreas foram
perdidos, deixando a região carente de médicos,
professores e cientistas. Para a reconstrução
da nação, o governo investe num projeto
denominado Visão 2020. “Para a formação
de
novos adultos e profissionais capacitados, a introdução
de tecnologias na Educação é uma
peça chave”, conta Silvia. A ideia é
dar um laptop para cada uma dos
2 milhões de crianças das escolas públicas.
Há ainda outras metas como prover
energia e internet para a população.
Apenas 6% das escolas têm luz.
Ruanda recebeu uma doação de
10 mil laptops de baixo custo e comprou
outros 100 mil providos de editor
de texto, browser, câmera para
foto, vídeo e áudio e softwares para
crianças criarem histórias animadas,
programas e jogos. Aos poucos os resultados
começam a aparecer. “Em
uma comunidade sem acesso à informação,
sem TV, jornais e revistas,
e onde os livros da biblioteca
não saem da escola, imagina a felicidade
deles quando descobriram o Google”,
conta Silvia. A possibilidade de levar os laptop
para casa estende os benefícios à família. “Eles
ensinam os pais a ler e escrever; ensinam amigos
e irmãos; tiram fotos; fazem vídeos”.
Os laptop têm ajudado, inclusive, na formação
dos professores. Desde o início do ano, a
língua oficial é o inglês. No entanto, a maioria
dos professores só fala o francês, mas precisa
ensinar o novo idioma. A internet entra aí como
um diferencial fundamental.
Silvia, o marido, o cientista da Computação
Juliano Bittencourt, e os demais integrantes da
equipe desenvolvem com as crianças atividades
que envolvem jornalismo, motivando os alunos
a escreverem sobre suas histórias, seus sonhos
e problemas da comunidade, e programação
de jogos. Há ainda o trabalho de investigação
de curiosidades. Os alunos falam sobre
suas curiosidades e depois pesquisam na
internet, documentando o processo com textos,
vídeos e fotos. Uma das questões levantadas,
conta a educadora, foi “Onde está o sol
quando é noite?”, e o modelo criado foi uma
simulação do sistema solar com os movimentos
da Terra.
“Ainda que só com esses 100 mil laptop, que
representa que 10% dos alunos realmente possam
usá-los para aprender, criar e se expressar,
daqui a alguns anos eles terão uma massa de
adolescentes capazes. E isso é o que eles precisam!
E criar oportunidades para essas crianças é
o nosso sonho”, conta entusiasmada.
O protótipo dos laptop foi desenvolvido pelo
MIT. Um dos seus mentores, o diretor do laboratório
de multimídia do Instituto, Nicholas
Negroponte, autor da célebre frase “computação
não se relaciona mais a computadores; relaciona-se a viver”,
propôs com o projeto reverter
a lógica de que computadores são privilégios
da elite. Sua postura de afronta à grande
indústria de tecnologia lhe rendeu grandes
embates com os chairman de empresas como a
Microsoft e a Intel.
Da Lomba do Pinheiro para o mundo
A familiaridade com o ambiente virtual proporcionou
um encontro inusitado para outro grupo de alunos da escola
municipal Afonso Guerreiro Lima, da Lomba do Pinheiro,
na capital. No final de julho, eles participaram em
pé de igualdade com crianças de todos os pontos do
planeta,
na 9ª Conferência Mundial de Computadores na Educação,
em Bento Gonçalves. A apresentação de projetos,
como
de protótipos em robótica, foi apenas uma das várias
experiências
vivenciadas. As crianças conversaram em inglês
com seus pares internacionais e, na volta, usaram o Google
Earth para localizar os endereços dos novos amigos. Dali,
uma série de conteúdos foram desenvolvidos nas áreas
de
Cultura, Geografia e Ambiente. O meio eletrônico virtual,
portanto, apresentou-se apenas como uma forma de atrair
o aluno para desenvolver o saber.
Para Daniela, ainda não é possível traçar
um perfil dos
adultos e das relações que surgirão no futuro
a partir dessas
capacidades. Mas, suscita a educadora, é possível
traçar
um paralelo com o passado. “Lembra que na tua sala
tinha um ou dois colegas com pendores especiais? Aquele
geniozinho que costumava ler dicionário ou desmanchar e
reconstruir rádios? Pois hoje todos têm esse perfil. É isso
que produz o ambiente virtual”, aponta.
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A adoção das novas
tecnologias tem promovido pequenas revoluções
também
em Porto Alegre, onde a rede pública, já de
longo tempo, investe em tecnologia na
Educação, aliando-se a celulares, computares
e sites de relacionamento para manter
o interesse do alunado nas aulas. Conforme relata
a coordenadora da equipe de
Inclusão Digital da Secretaria Municipal de
Educação, Daniela Bortolon, com
acesso em casa e entre os amigos, o alunado não
se contentou mais com cartilhas,
quadro negro e giz. Para seduzí-los, computadores
de última geração, softwares
para
a criação de robôs e outros tantos
hardwares, como scanners e câmeras, tornaram-se
peça obrigatória na engrenagem do aprendizado.
Os professores vêm desenvolvendo
projetos de robótica, de produção
de rádio pela internet e até de alfabetização.
De acordo com Daniela, não se trata apenas
de colocar as escolas da periferia
em contato com o ambiente digital. O reflexo na auto-estima é um
dos componentes
que mais os tem motivado. A coordenadora exemplifica
com o caso de uma
jovem de 17 anos da comunidade que transferiu-se
com a família para o Rio de
Janeiro. A experiência com na webradio da escola
encorajou a menina a procurar
emprego em uma emissora carioca. “Ela sabia
que tinha capacidade, e o novo
chefe se surpreendeu com a aptidão superior
a de muitos recémformados”.
Ao lado da auto-estima, outro reflexo citado é a
disposição que a criança tem
de rever posturas. Se antes o aluno tinha receio,
o contato com o ambiente
virtual o deixou infinitamente mais corajoso. “Eles
não têm medo de experimentar.
O aluno acostumado ao ambiente virtual é destemido,
vai em frente. Essa
postura ele vai levar para toda sua vida”.
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