CRISE NA ULBRA
PF indicia
ex-pró-reitor
e advogado por corrupção ativa
Por Naira Hofmeister

Polícia
Federal indiciou o ex-pró-reitor de Administração
da Ulbra, Pedro Menegat, e o
advogado Luiz Vicente Dutra por
corrupção ativa, no desfecho da
Operação Fariseu. A operação foi
deflagrada em 2008 para investigar 60
instituições suspeitas de obter títulos
de filantropia em troca de propinas.
O relatório da PF cita o deputado
federal Eliseu Padilha
(PMDB), que tem um contrato de
consultoria entre a sua empresa e
a Ulbra, no valor de R$ 1,4 milhão,
investigado pelo Ministério Público
Federal. De acordo com a PF,
entre as contrapartidas exigidas
pelo parlamentar estaria uma solução
política para a obtenção do
Certificado de Entidade Beneficente
de Assistência Social (Cebas)
para a Ulbra válido para os anos de
2007 a 2009. O relatório da Operação
Fariseu mostra que, tecnicamente,
os integrantes do Conselho
Nacional de Assistência Social
(CNAS) haviam barrado a tentativa
de renovação do Cebas por três
vezes devido à constatação de repasse
de patrimônio para integrantes
da Reitoria e a não comprovação
de 20% de gratuidade nos serviços
prestados.
Nem foi preciso que o deputado
entrasse em campo – inclusive,
no final de 2007, lhe foi pedido que “não interviesse nesse momento”.
O advogado Luiz Vicente Dutra,
sócio da LD Consultores, se encarregou
de obter o papel “na marra”.
Através de grampos telefônicos
autorizados judicialmente, a PF
flagrou Menegat autorizando o pagamento
de um valor entre R$ 5
mil e R$ 8 mil ao conselheiro que
elaborasse um parecer encomendado
pela gestão. Em uma das gravações
Menegat pergunta a Dutra o valor
da propina, indicando que a prática
não seria novidade: “Me dá uma
sugestão [de quanto isso vai custar],
dentro do critério de sempre”.
Menegat também concordou
em pagar viagens de conselheiros
a Porto Alegre na tentativa de reverter
resistências à concessão do
certificado. Em outubro de 2007,
por exemplo, a Ulbra repassou à empresa Tripsul
(cuja proprietária é
esposa do advogado Dutra) valores
correspondentes às duas diárias
de R$ 200 e o aluguel de um
carro de R$ 750. Utilizaram os serviços
os conselheiros Ademar de
Oliveira Marques e o relator do
processo de concessão de certificado à
Ulbra, Marcelo Garcia
Vargen, ambos indiciados pela PF
por corrupção passiva.
Vargen declarou que não recebeu
benefícios financeiros e que
estranhou que Ademar Marques
tivesse feito “uma defesa tão aguerrida” da
Ulbra no plenário
do CNAS em janeiro de 2008, quando
foi deferido o pedido da instituição.
Ele justificou seu voto em
favor da Ulbra, alegando que sofreu “
pressão política de toda a ordem
para que o processo fosse aprovado”,
inclusive do secretário estadual
da saúde do RS. Segundo
Vargen, Osmar Terra teria afirmado
que a saúde da região Metropolitana
iria falir, caso a Ulbra perdesse
o certificado.
Em depoimento à PF, Menegat
disse que considera “normal” a
transação. “Temos um contrato de
consultoria com a empresa de
Dutra, envolvendo o atendimento
a todas as unidades da Ulbra. O
pagamento desse tipo de despesa
(viagens, hotéis e locação de veículo)
está incluído”, alegou. A Procuradoria-Geral
da República deverá decidir se apresenta denúncia
criminal contra os acusados.
Justiça
responsabiliza Ruben Becker
No dia 21 de agosto, oficiais
de Justiça retiraram 240 carros
do “Museu da Tecnologia”, da
Ulbra. Os veículos confiscados
não estavam registrados no nome
da Celsp, pois pertencem ao exreitor,
Ruben Becker. A ação da
Justiça Federal tornou pública uma evidência
que há muito vinha sendo apontada pelo Sinpro/RS de que
há uma confusão entre o
patrimônio de Ruben Becker e o da Universidade. “É
mais uma mostra do personalismo que
o ex-reitor conferiu à sua gestão e uma das razões
que levaram à derrocada da instituição,
uma crise que vem de longe”, constata Marcos
Fuhr, diretor do Sinpro/RS.
A ordem para recolher os veículos é consequência
de uma decisão tomada no dia
31 de julho, que determina que o ex-reitor e
outros cinco integrantes de sua gestão – o filho
de Ruben, Leandro Eugênio Becker, o ex-presidente
da Celsp, Delmar Sthanke, os contadores
Aérnio Dilkin Penteado e Aérnio Dilkin Penteado
Júnior e Graziela Graciolli de Lima Maria –
sejam responsabilizados pelos danos ao
patrimônio da União.
O ex-reitor teve todo o seu patrimônio, avaliado
em R$ 40 milhões, indisponibilizado pela
Justiça. Além do acervo do Museu, calculado
em R$ 15 milhões, foram penhorados apartamentos, coberturas
e carros de
luxo do ex-reitor e das empresas
de sua propriedade. Já foram
recolhidos um Audi A8
avaliado em R$ 600 mil e duas
BMW que, juntas, valem mais
de R$ 700 mil. A última, penhorada
há cerca de um mês, estava no nome
da esposa de Ruben Becker, Luiza Madalena
Konrath Becker. Os R$ 2.634,33 mensais que
ela recebia como funcionária da Celsp foram
considerados pela Justiça como insuficientes
para manter tal patrimônio.
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MP
investiga contratos suspeitos
O processo é uma execução fiscal, o que
impede que a Justiça Federal vá além da penhora
de bens e encaminhe as suspeitas para
investigação do MPF e da Polícia Federal. “A
situação deles vai piorar se for comprovado
que a dívida da Ulbra foi usada para proveito
próprio”, sinaliza o juiz federal Guilherme
Pinho Machado. A auditoria ordenada pela
Justiça Federal que atua dentro da Ulbra encontrou
dezenas de contratos milionários assinados
pelo ex-reitor, que beneficiam empresas
de familiares e de políticos. Estão na lista
o vice-governador, Paulo Feijó (DEM), o deputado
federal Eliseu Padilha (PMDB) e o prefeito
de Canoas, Jairo Jorge (PT). Na maioria
dos casos, há indícios de superfaturamento ou
falta de comprovação de que os serviços foram
efetivamente prestados. A empresa de Feijó foi
contratada sob absoluto sigilo para intermediar
a venda dos hospitais Luterano, Independência
e Tramandaí. Detalhe: os três estavam penhorados
para pagar dívidas da instituição. “Só com
muito boa vontade se pode considerar descuido por parte de uma
empresa assinar contrato
para vender bens sem observar a respectiva
matrícula pública”, aponta Machado.
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