SADI DAL ROSSO
Mais
trabalho, menos empregos
O aumento da intensidade do trabalho, fenômeno
considerado contemporâneo pelos
pesquisadores, vem sendo estudado por Sadi Dal Rosso, 62 anos,
professor doutor em
Sociologia pela Universidade do Texas com pós-doutorados
na Itália, França e nos Estados
Unidos, graduado em Ciências Sociais pela Universidade do
Vale do Rio dos Sinos
(Unisinos) e em Filosofia. Nascido em Jaguari, no Rio Grande do
Sul, atualmente é professor
titular de Sociologia da Universidade de Brasília. Ele conversou
com o Extra Classe
sobre este assunto que faz parte do dia-a-dia dos trabalhadores,
que realizam cada vez
mais atividades durante suas jornadas de trabalho. Segundo o professor,
as soluções
pensadas para a intensificação do trabalho giram
em torno da busca de maior qualidade
de vida no ambiente profissional, como a psicodinâmica do
trabalho, que atua no sentido
de os próprios empregados refletirem sobre o processo e
poderem se pronunciar a respeito.
Ele destaca também a importância dos acordos trabalhistas
específicos entre os
sindicatos e instituições.
Por Grazieli Gotardo
Foto:
Rodrigo Dalcin/divulgação |
Extra
Classe – Como se dá o
fenômeno do aumento da intensidade
do trabalho?
Sadi Dal Rosso – Primeiro, é preciso
ter clara a ideia de intensidade
do trabalho. Alguns autores
utilizam outros termos como
carga de trabalho ou esforço no
trabalho. Eu utilizo um termo mais
clássico dentro da literatura sociológica,
que é a intensidade. Todo
trabalho tem um grau de intensidade;
exige um desempenho de
esforço; um gasto de energias, sejam
físicas ou mentais. Se há um
aumento exacerbado do gasto de
energia, nós podemos falar que há um processo de intensificação
do trabalho. Popularmente, se diz que é
um trabalho muito “puxado”.
Isso é possível de ser visualizado
em qualquer tipo de atividade, a
jornada de trabalho permanece a
mesma, mas o que aumenta é número
de atividades feitas no mesmo
período. A literatura internacional
menciona os anos 80 em
diante como um período de crescente
intensificação do trabalho
porque houve muita demissão de
mão-de-obra, o chamado processo
de reestruturação produtiva.
Houve o enxugamento de empregados,
mas as atividades continuaram
as mesmas ou aumentaram.
Com isso, você tem o processo de
intensificação. A década de 80,
tanto no Brasil como internacionalmente,
foi uma época de reorganização
do processo de trabalho.
Em termos administrativos
houve a redução de pessoas e a
terceirização de atividades que
não eram entendidas como importantes
ou centrais. Um bom exemplo é
o setor bancário, o antigo caixa
passou a ser um vendedor de
serviços e exerce três ou quatro
atividades.
EC – A intensificação a partir
da década de 80 teria relação com
a inserção das tecnologias da informação
no trabalho?
Dal Rosso – Essa ideia de que
as mudanças tecnológicas trazem
uma intensificação é muito antiga.
No começo do século 19, ela
já estava presente na revolução
industrial. Quando lemos O Capital,
Carl Marx escreve sobre a
intensificação do trabalho naquele
contexto de revolução industrial,
em que fala exatamente que
a nova tecnologia trouxe novos
processos que as pessoas tinham
que aprender e desenvolver, novas
habilidades e novos ritmos.
Então, a tecnologia que a princípio
parece uma questão indiferente,
não é, pois pode aumentar a
disponibilidade do trabalhador
para o trabalho. Com isso, podese
dizer que a questão da
tecnologia tem, sem dúvida, a ver
com a intensificação do trabalho.
EC – Quem se beneficia
da intensificação da produtividade
e do ritmo dos trabalhadores?
Dal Rosso – Se fossemos
determinar a intensidade individualmente,
cada um trabalharia
no ritmo que consegue. Mas isso
não é entregue à decisão individual,
especialmente quando nos
referimos aos processos de
assalariamento. A decisão quanto à
velocidade do trabalho é determinada
por
uma equação
em que entra
o empregador
e
o empregado.
Então não está nas mãos do empregado
tomar a decisão total sobre
seu ritmo de trabalho. O empregador é
quem vai dizer. Hoje
em dia o termo que especifica mais
isso é “administração por resultados”.
Quem se beneficia disso são
as empresas, os grandes negócios
do mundo capitalista ou mesmo
dos governos. Nitidamente isso
está vinculado à característica do
capitalismo contemporâneo, que
não pode, mas tenta, aumentar a
jornada de trabalho, ele obedece
a Lei, mas aumenta o resultado.
Costuma-se dizer que a porosidade
do trabalho vai diminuindo,
os tempos livres para descanso
vão diminuindo.
EC – O capitalismo levado ao
extremo pode ser o grande culpado
da intensificação?
Dal Rosso – Claro que sim, o
objetivo da intensificação do trabalho é
aumentar a produção de
valores, que aumentam o ganho
do capital. Isso ocorre a tal ponto
que, em pesquisas empíricas, o
que se observa é que essas mudanças
organizacionais na administração
da mão-de-obra, na reorganização
da forma como as pessoas
trabalham, começou especialmente
em grandes negócios,
empresas internacionais
que conseguem
processos de trabalho
mais produtivos
que correspondem,
no meu entendimento,
a um processo
de trabalho
mais intensificado.
No
caso do Brasil,
isso sempre vem
de fora do país.
Atualmente em âmbito internacional,
o modelo toyotista,
da empresa
Toyota, é o sistema
mais bem sucedido.
O modelo
toyotista
usa o trabalho com muita eficiência,
algumas das suas características
são concentração de atividades
no mesmo trabalhador e um
sentido de trabalho em equipe. Na
medida em que no trabalho em
equipe cada indivíduo não pode
ficar para traz daquilo que a média
da equipe faz. É um sistema
que puxa para cima o desempenho
do trabalho. No ano passado,
a Toyota foi a empresa que mais
vendeu internacionalmente. Não
sei o que vai acontecer a partir da
crise econômica, mas a eficiência
sob ponto de vista capitalista foi
demonstrada. E quando uma empresa
consegue desenvolver um
modelo com mais resultado, as
outras vão atrás a tal ponto que se
forma uma onda de intensificação
do trabalho que se espalha para
outros setores.
EC – No Brasil, a Educação
Superior cada vez mais coloca profissionais
no mercado e muitos estão
desempregados. Não estaria o
Brasil formando mais que o necessário
no topo, sem se preocupar com
a base (EnsinoFundamental e Médio
de qualidade)?
Dal Rosso – Isso é muito interessante
porque os países da América
Latina, que em geral são mais
pobres que o Brasil, têm uma proporção
do número de estudantes
universitários muito maior que o
Brasil. Aqui temos cerca de 10%
a 12% de estudantes universitários
entre 20 e 24 anos, contra 15%
a 20% no restante do continente.
E isso aumenta muito quando comparamos
com o Canadá, EUA e Europa.
Isso mostra que a gente tem
que ter uma preocupação com a
questão do nível superior também,
e isso não atua contra o Ensino
Básico em termos comparativos.
Em termos de formação, é o
pessoal do Ensino Superior que
atua na Educação Básica, então é importante
ter bons professores
universitários para termos bons
professores de Ensinos Médio e
Fundamental. Nos últimos anos,
o Brasil conseguir matricular quase
todas as crianças em escolas, é um momento ímpar
de nossa história,
apesar da precariedade das
instituições públicas. Acredito
que isso é uma tendência e um
fato muito importante, pois poderemos
trabalhar sobre a questão da
qualidade. E isso exige também um
bom sistema universitário. Não
necessariamente um sistema privado,
pois acho que nós temos que
aumentar a proporção de instituições
públicas de Ensino Superior.
EC – O senhor acredita no fim
da carteira de trabalho?
Dal Rosso – Em geral estas
questões vêm sendo levantadas
junto com ideias de flexibilização
do trabalho. Mas essa ideia de trabalho
flexível funciona muito para
as empresas e menos para o trabalhador. É
claro que as professoras
e professores que têm filhos, por
exemplo, se pudessem chegar na
escola em horários diferentes ou
sair um dia mais cedo e compensar
em outro horário, todos gostariam,
mas essa ideia da flexibilidade
passa pela ideia de gestão
do trabalho em relação àquilo
que a empresa requer. Portanto,
se a estratégia das empresas for
trabalho flexível isso pode gerar
também maior dedicação ao consumidor,
mais tempo de portas
abertas para os clientes e assim
por diante. Eu diria que essa ideia
deve ser olhada com um lado bastante
crítico. Seria um avanço,
mas as empresas não estão pensando
no trabalhador e suas necessidades,
elas estão pensando
na flexibilidade que elas precisam
para atrair clientes e vender seus
serviços. Além disso, exigiria inclusive
alterações em leis trabalhistas,
por isso não me pronuncio
a favor.
EC – O Dieese divulgou recentemente
que 77% dos trabalhadores
receberam reajuste igual ou superior
ao INPC em 2008 e conclui
que a crise econômica não teve
impactos nas negociações salariais.
Qual a sua análise?
Dal Rosso – Isso pode ser um
efeito demorado no tempo, pois o
efeito da crise demora para se projetar.
Acredito que a crise em algum
momento vai trazer arroxo
salarial. Especulando um pouco,
até agora no serviço público federal
mantiveram-se os reajustes,
mas se a crise continuar mais um
pouco não sei se vão permanecer
ou se vamos voltar aos anos 90,
quando era muito difícil conseguir
um reajuste. Avalio que a
crise sócio-econômica mundial
não terminou, seus efeitos não se
projetaram no total, mas ela já teve impactos internacionais fantásticos:
aumentou o desemprego
dramaticamente, o índice norteamericano
está quase igual ao do
Brasil, segundo o IBGE, na casa
dos 10%. Mas muitos impactos
ainda não se fizeram sentir localmente,
então vejo isso como uma
possibilidade de explicação e acho
que seria prematuro assumir que
a crise e seus efeitos já tenham
cessado.
EC – Em pesquisa recente do
Sinpro/RS, foi comprovada a carga
elástica e excessiva de trabalho
extraclasse que o professor do ensino
privado está submetido. Como
o senhor avalia esse cenário?
Dal Rosso – Olhando pela esfera
federal das universidades e
de algumas estaduais que conheço,
ele vem aumentado. No contexto
da Educação Superior é notório
que decisões relativas aos
programas de pós-graduação elevam
a intensificação quando reduzem
o tempo de conclusão das
disciplinas e aumentam as exigências
em termos de publicações.
Quando a gente passa ao contexto
dos professores de Ensino Básico,
coisas semelhantes acontecem
quando vemos o aumento do número
de estudantes em sala de
aula. Se o professor trabalhava com 15 alunos e agora
com a mesma jornada tem que trabalhar com
20, obviamente está se exigindo
mais resultados dele. Nas minhas
pesquisas aqui no Distrito Federal,
o índice de intensificação também
foi bastante grande no ensino privado.
As pessoas vão resistindo à intensificação
do trabalho à medida
que podem. Há certas estratégias individuais
ou coletivas, mas chega um
momento que elas não dão mais conta
da pressão, e isso conduz a que
comecem a aparecer problemas de
saúde individual e coletiva.
EC – A contratação por hora-aula
pode ser um dos problemas
enfrentados pelos professores para a
conquista de mais direitos?
Dal Rosso – A contratação por
hora-aula é uma pressão sobre o
professor, quase como um aguilhão
para produzir muito. Para os empregadores, é
uma forma de eles
terem menores gastos, menor
envolvimento e terem nas mãos um
controle de rédeas curtas dos professores.
A hora-aula é um mecanismo
terrível que fica como uma
espada sobre a cabeça da gente.
EC – O senhor acredita na redução
da jornada de trabalho no
Brasil como uma saída para reduzir
desemprego e melhorar as conquistas
dos trabalhadores?
Dal Rosso – A reivindicação
da redução da jornada tem dois
objetivos: reduzir desemprego e
tornar a vida do trabalho um pouco
mais suportável. Eu acredito
que a redução da jornada está a
um passo de ser conseguida e
acho que seria um avanço muito
importante porque unificaria o
setor público e privado. Não há porque o setor público
trabalhar 40 horas e o privado 44 horas.
Ainda que não produzisse mais
empregos, pois segundo um estudo
meu da década de 80, o impacto
sobre a questão do emprego é
relativamente pequeno.
Mesmo assim, eu acho que seria
um grande avanço para a qualidade
de vida no trabalho.
EC – E possível falar hoje em
grandes diferenças entre a classe
operária e a classe média, diante
da pressão e excesso de trabalho a
que todos estão submetidos?
Dal Rosso – Vejo que no mundo
das empresas privadas depende
de onde elas atuam: mercado
internacional, nacional, regional
ou local. Quanto mais as empresas
operam em mercados maiores
começam exigir cada vez mais esforços
dos seus trabalhadores, mais
resultados, os processos de trabalho
vão sendo reorganizados, reformados.
As diferenças não se
colocam em termos de formação,
mas onde as pessoas estão operando
naquele setor. A própria
senhora do cafezinho que atua
num grande banco, é muito pressionada.
O mesmo acontece com
os professores, se ele trabalha na
Educação Infantil, Ensinos Fundamental,
Médio ou Superior, não
tem muitas diferenças. Aqui em
Brasília já estão falando que está se
usando o método
toyotista nas escolas em função das exigências
de resultados e polivalência
cobrada do professor. O docente
tem que preparar aulas, fazer trabalhos, provas, corrigir, ser
orientador, fazer marketing, pois
se os alunos vão embora você perde
o emprego, e então a hora-aula
funciona como uma espada na cabeça
do professor.
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· Políticas para
a promoção da
igualdade racial. 1. ed. Goiânia:
Funape/Programa de Direitos
Humano da UFG, 2009.
·
Mais trabalho!. A
iintensificação do trabalho na sociedade
contemporânea. São
Paulo: Boitempo Editorial,
2008.
·
As Condições e Trabalho no
Limiar do Século XXI. 1. ed.
Brasilia, DF: Épocca Editoria,
2007.
·
A regulação
social do trabalho.
Brasília: Paralelo 15, 2003.
·
Atividades pagas em universidades
gratuitas. Caminho para
a privatização. Brasília:
AdunB, 2002.
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