DEBATE
Entre a política e a moralidade
No próximo mês de novembro, o Brasil vai comemorar
os 120 anos da Proclamação da República. As
comemorações
acontecem em um momento especialmente delicado no que se refere
aos chamados “valores e instituições republicanos”.
As denúncias e escândalos envolvendo a Câmara
dos Deputados e o Senado alimentam diariamente o noticiário
político
desde o início do ano. A CPI da Petrobras e um mal explicado
possível encontro entre a ministra chefe da Casa Civil,
Dilma
Rousseff (PT), e a ex-secretária da Receita Federal, Lina
Vieira, evidenciam como ocorrem os encaminhamentos a respeito
de questões referentes ao zelo com o patrimônio público.
A versão local dos escândalos atinge diretamente o
Executivo. A
governadora Yeda Crusius (PSDB) foi denunciada pelo Ministério
Público Federal (MPF) por improbidade administrativa, em
uma ação onde há outros oito “réus”,
entre eles o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE),
João Luiz Vargas, o
deputado federal José Otávio Germano (PP), os deputados
estaduais Luiz Fernando Záchia (PMDB) e Frederico Antunes
(PP). Yeda é alvo ainda de procedimento investigatório
que corre na Procuradoria Geral da República (PGR) em Brasília.
Nacional ou regional, a sucessão de fatos vem obrigando
o país a ressuscitar velhas discussões sobre a falta
de ética na
política, a corrupção, a apropriação
do público pelo privado e, somada a todos estes fatores,
a quase indiferença da população. Nas páginas
que seguem, especialistas e intelectuais retomam clássicos
da Filosofia, da Ciência
Política, da
Sociologia e da Antropologia para tentar explicar por que, transcorridos
120 anos de instalação da República, o país
mantém
na política práticas da época colonialista,
que custam caro não apenas aos cofres públicos, mas
também ao seu
autorreconhecimento como nação.
Por Flavia Bemfica
Desde os tempos de Platão

discussão
sobre se as regras da
política podem ser submetidas às regras
da moral é uma espécie
de “pilar” do estudo da política
e pode-se dizer que está presente
em todos os clássicos desde
Platão. O tema foi abordado por
Nicolau Maquiavel, Thomas
Hobbes, Emmanuel Kant e Max
Weber, só para citar alguns. A distinção
entre política e moral assim
como a conhecemos – no sentido
de que o que é obrigatório na moral
nem sempre o é na política e
de que o que é lícito na política
pode ser moralmente ilícito – é atribuída
a Maquiavel.
Grosso modo, a conhecida teoria
do pensador italiano estabelece
que enquanto que moralmente
uma ação é boa ou má tomando-se por
base uma norma préestabelecida,
um critério associado
ao conceito de bem, na política
o que determina se ela é boa ou
má é seu resultado. Popularmente,
a teoria foi reduzida ao conhecido “os fins
justificam os meios”.
No estudo e mesmo na prática
política, a teoria maquiavélica não é
única, apesar de sua força em
diferentes correntes do pensamento.
Além disso, a distinção entre
tipos de éticas está presente em
várias outras áreas da ação humana.
Existem, por exemplo, a ética
do mercado, a do Direito ou a
da Medicina. As diferenciações
são estabelecidas de forma a que
se entenda o quanto regras de
conduta pessoal, do trato entre
indivíduos, nem sempre podem
ser aplicadas a grupos. Mesmo
seguindo esta linha, a política
teria algumas características exclusivas,
uma vez que trataria
tão somente dos deveres para
com os outros, sem a distinção
entre estes e os deveres para
consigo mesmo.
A convivência
entre contrários
O professor do Departamento
de Filosofia da Universidade de
Caxias do Sul (UCS) e professor
titular aposentado da Faculdade de
Filosofia da Ufrgs, João Carlos
Brum Torres, argumenta que na
vida privada nossa ética se baseia
em pontos como o respeito aos direitos
dos outros e podemos escolher
o núcleo de relações. Na política,
ela é um terreno de representação
comunitária onde contrários
são obrigados a conviver e a
tomar decisões coletivas. A partir
daí, se estabelece um princípio de
transação.
O professor é considerado uma
autoridade no assunto porque, ao
contrário da maior parte dos filósofos
e cientistas políticos, não se
restringiu aos estudos teóricos.
Como integrante de diferentes governos – foi secretário
municipal
em Porto Alegre, diretor do Banco
de Desenvolvimento do Estado do
RS (Badesul) e por duas vezes secretário
de Estado – pôde observar
na prática como a política se
desenvolve. “Na vida privada,
quando ocorre um rompimento
sério por diferenças de posições, ele é
definitivo. Na política, um rompimento
nunca pode ser para sempre,
porque o seu contrário, ele não
desaparece, e, no futuro, pode até vir a ser
um aliado. Isso, do ponto de vista da ética privada, é escandaloso”.
Uma segunda decorrência,
segundo o professor, também é importante.
O fato de que a ação política
tem sempre um sentido estratégico. “É
necessário ‘enquadrar’ o adversário.
Parte disso se faz com argumentos,
e parte, levando em conta
os interesses desses adversários,
fazendo concessões. Por ser estratégico,
o movimento perde em transparência”,
resume Brum Torres.
Entender
a política não é para ingênuos
É fato para especialistas e pensadores que as
regras que valem para a política não são aquelas
da ética individual, e que aplicar a segunda à
primeira seria uma grande ingenuidade. Mas
isso, asseguram os próprios filósofos e cientistas
políticos, não significa que a política seja
desprovida
de regras. Ao contrário. Na obra Teoria
geral da política: a filosofia política e as lições
dos
clássicos, de Norberto Bobbio e Michelangelo
Bovero, além de um extenso apanhado sobre a
relação entre política e moral, destacam que,
mesmo na teoria maquiavélica, os fins só justificariam
os meios no caso de a ação política ‘imoral’ ser
legitimada por ‘grandes coisas’ ou ‘a saúde
da pátria’. “Perseguir o poder pelo poder significaria
transformar um meio em um fim em si
mesmo”, assinalam. Tomando como
exemplo a corrupção, os autores lembram
que o que torna moralmente ilícita toda
a forma de corrupção política “é a
fundamentadíssima presunção de que o
homem político que se deixa corromper
colocou o interesse individual à frente
do interesse coletivo, o bem próprio à frente
do bem comum, a saúde da própria
pessoa e da própria família à frente
da saúde da pátria. E assim fazendo faltou
ao dever de quem se dedica ao exercício
da atividade política, cumprindo uma ação
politicamente incorreta”. Alguém lembrou dos políticos
gaúchos denunciados pelo Ministério Público
Federal (MPF). Ou do presidente do Senado, José Sarney?
“O Sarney é um caso emblemático, porque é
um homem culto e certamente poderia fazer
uma explanação teórica sobre a ética
bem melhor
do que muitos, mas o que ele sente e faz é outra
história”, completa o professor João
Carlos
Brum Torres. Segundo o professor, os escândalos
pelos quais a política brasileira passa no momento
remetem justamente ao desrespeito dos
limites da própria política. “As transações
jamais
podem ocorrer em cima de interesses materiais
e nem dizer respeito a bens públicos. A
barganha política não pode ser transformada em
patrimonial. A própria transação política é limitada
e não pode ocorrer quando claramente
contrária ao bem público”.
Falta
freio ético no país
do 'jeitinho'
No caso brasileiro, admite Brum Torres, a
questão cultural precisa ser levada em conta
quando se analisam as práticas políticas. “As
grandes etapas dos marcadores da nossa história
foram todas transacionadas ou quase isso.
Vestiram-se instituições republicanas e um discurso
republicano sem que isso partisse das entranhas
da sociedade, que é muito laica no sentido
do prazer e do sucesso material. Parece não
existir um freio ético de base religiosa e muito
menos um laico de base republicana”.
O professor de Ciência Política na Universidade
de Brasília (UnB) e membro do conselho
diretor da Ong Transparência Brasil, David
Fleischer, tem avaliação semelhante. Para o professor,
vários dos atos de Sarney, como o benefício
de parentes e amigos, encontram respaldo
entre a população e, em parte, é por isso
que a cobrança da sociedade ainda é pouco
acentuada. “O país não abandonou o ‘jeitinho’.
O problema é que existe uma linha muito tênue
entre o ‘jeitinho’ e o crime. Associada a
isso ainda existe a velha confusão entre público
e privado. Você observa um político referirse
ao governo dizendo ‘o meu governo’. O sentido é
este mesmo: o governo é meu, eu sou
dono, ele entende que lutou para conquistar
isso, como se fosse uma propriedade. Não é”.
Há uma série de medidas que podem ser
adotadas no curto prazo para reverter a situação,
mas Fleischer aposta na mudança cultural. “Tem
que começar a trabalhar isso lá na
escola sim”. Como integrante do Transparência
Brasil, o professor visita escolas em Brasília,
para conversar sobre temas como cidadania
com os alunos. “Falamos, por exemplo, sobre a
cola, que é vista como a coisa mais comum.
Ou sobre práticas dos pais, que compram filmes
piratas, ou, na frente das crianças, dirigem-se ao comércio
e perguntam os preços de
uma mesma mercadoria com nota e sem nota
fiscal”.
O professor ressalva que não está entre os
que acreditam que o problema seja uma espécie
de exclusividade do país, apesar das questões
culturais. “Nos Estados Unidos, as empresas
não fazem caixa dois porque, se forem pegas,
o ônus é muito alto. Se não há caixa
dois
interno, a empresa vai ficar muito relutante em
dar dinheiro para um político via caixa dois de
campanha. É preciso amarrar todas as pontas”.
É preciso
fortalecer o conceito de bem comum
Especialistas de todas as áreas do
conhecimento ligadas às chamadas
ciências humanas já se debruçaram
sobre as particularidades da cultura
brasileira para tentar explicar a
combinação que permite que as denúncias
de corrupção e de
beneficiamento privado a partir de
recursos públicos se sucedam há décadas,
com diferentes sujeitos, apesar
das denúncias recorrentes. A
conclusão é de que também uma
combinação – de medidas de curto
a longo prazos – é que pode diminuir
em muito o problema.
“A corrupção no Brasil remete à própria
construção do Estado nacional
e à persistência de traços de
atraso como o patrimonialismo, a
truculência e a pouca diferenciação
entre a esfera pública e a privada.
Para fazer frente a isso é necessária
uma experiência na qual são importantes
tanto instituições democráticas
como regras de responsabilização.
Mas isso é insuficiente. É necessário
fortalecer uma cultura política:
comportamentos, ideias, ações
que resgatem a dimensão republicana,
ou do bem comum”, explica o
jurista, professor titular de Direito Constitucional
e ex-diretor da Faculdade de
Direito da Ufrgs, Eduardo Carrion.
Carrion defende que os avanços
não dependem exclusivamente de
reformas constitucionais: podem ser
obtidos via reformas na legislação ordinária
e com a aplicação de fato
das leis referentes à fiscalização e
responsabilização de dirigentes e representantes
políticos. Cita a mudança
na forma de financiamento
das eleições, o aperfeiçoamento da
representação proporcional e o fim
da reeleição para cargos executivos. “O
desvio de recursos decorrente da
corrupção tem um alto custo social
não só porque o desvio compromete
as políticas sociais, mas porque
fragiliza o contrato social, ou seja,
os referenciais coletivos e de solidariedade.
Isso precisa ser evidenciado”.
No RS
a fiscalização das contas ainda é feita
em sigilo
A questão da fiscalização é outro ponto
nevrálgico. “As auditorias como
as realizadas pelos Tribunais de Contas são praticamente
contábeis. Ora,
normalmente os desvios não vão para os balancetes”,
lembra Brum Torres.
Quem estuda a corrupção na política sabe que
os corruptos não raro são
especialistas em Direito, Economia ou Administração
que conhecem como
poucos as brechas legais, as artimanhas contábeis, a dificuldade
na obtenção
de provas consistentes, a lentidão dos processos e a falta
de informação
generalizada. No RS, por exemplo, a Contadoria e Auditoria Geral
do
Estado (Cage), vinculada à Secretaria da Fazenda Estadual,
realiza auditorias
regulares nos diferentes órgãos da administração.
Os resultados,
porém, não são divulgados. São encaminhados
em caráter sigiloso para a
Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa e,
não raro, acabam nos
arquivos sem serem consultados. Na Casa, tramita projeto para que
os
resultados das auditorias tornem-se públicos. Por enquanto,
sem decisão.
Reforma e fiscalização
Entre as medidas que poderiam ser implementadas independente da
longa mudança cultural, três são uma espécie
de unanimidade: o fim do
financiamento privado de campanhas; a profissionalização
dos Tribunais
de Contas (TCEs) e o fortalecimento dos órgãos de
fiscalização. “O financiamento
privado cria laços, amarras, privatiza a carreira política.
O
político fica em uma situação assim de, pelo
menos, manter-se atento aos
interesses do financiador, para citar os casos mais inocentes”,
resume o
professor João Carlos Brum Torres.
A situação dos TCEs também incomoda aos especialistas. “Como é que
o sujeito chega ao Tribunal, que tem como tarefa fiscalizar as
contas
do poder público? Tornar-se conselheiro é um presente
para deputados
em fim de carreira. Este mecanismo precisa mudar”, argumenta
o coordenador
de Projetos da ONG Transparência Brasil, Fabiano Angélico.
Ele refere-se ao fato de que as chamadas cortes de contas são
compostas
por uma mescla de deputados indicados por seus pares e servidores
de
carreira na qual os primeiros são maioria, seguindo a divisão
estabelecida
na Constituição Federal (reproduzida pelas estaduais):
dois terços de membros
indicados pelo Congresso Nacional, no caso da União, e pelas
Assembleias Legislativas nos estados e um terço de técnicos.
Quando a
totalidade resulta em número ímpar, sempre é possível
um arredondamento.
No RS, por exemplo, dos sete conselheiros, cinco são ex-deputados
e dois
servidores de carreira.