
Psiulêncio

uça
o Silêncio: ele sussurra seu sumiço na sociedade.
Já não soa como
dantes, nem dentro nem fora do quartel de Abrantes.
Sinta esse impronunciável assunto. Calar sobre ele é dar
consistência
a ele; discorrer sobre ele é dissolvê-lo no ar. E
lá vou eu, luvas
de veludo num teclado de pelúcia, tateando a perícia.
Imagino o mais soturno Silêncio: estará em completo
silêncio, repleto de ausências de ressonâncias?
Deve haver, em alguma inaudível fronteira acústica,
o
Silêncio Absoluto – que nem o mais apurado ouvido
absoluto consegue captar. Imensa mansidão que repousa
na paz sem voz.
Mas o som tem marés insondáveis, onde as ondas
sonoras não se aquietam nunca. Nas profundezas das escalas,
se insinuam no Silêncio e o deixam cheio de si,
pleno de sons infras e ultras. Um Silêncio de encher o
escuro e deixar animais de orelha em pé ou rabo entre as
pernas. O mesmo sopro secreto de apitos invisíveis aos
tímpanos humanos.
O que faz pensar na infinita e inaudita variedade de silêncios.
No silêncio
por constrangimento, que é, lógico, constrangedor.
No silêncio
compungido, sempre doloroso. No inquieto silêncio por timidez,
que difere do silêncio da intimidade gêmea, ou do silêncio
sinal íntimo de sisudez, e que
nada têm em comum com o silêncio intimidador ou com
os insuportáveis
silêncios solenes, sem fim, onde sucumbimos de sono.
E existe a dessemelhança dentro do silêncio: nele
podemos
calar de tudo e cada coisa calada resulta num tipo singular de
silêncio.
Estar quieto não é a mesma coisa que estar sossegado,
que
não é igual a estar introspectivo, que não
se parece com estar
absorto, e nada disso tem a ver com estar simplesmente silente.
Já silenciar, em seu sentido seletivo, o da escolha de não
silabar nem sibilar, pode ser um ato superior, enquanto o
mutismo tende a ser só submissão à impossibilidade
de ruído.
Por fim, o silêncio na repentina falta das sonoridades. Esse,
salta nos ares e preenche áreas desocupadas de barulho.
Sinistro
ou não, surpreende ouvintes por seus retumbantes
tons silenciosos: quando antecede, pesado, uma tormenta;
no momento imediato após estrondos catastróficos;
ao fim
de desesperado grito rebentado ao meio; no staccato de
uma poderosa sinfonia; na trégua do eco das nossas passadas
solitárias na
mata; em seguida a súbitas freadas na madrugada. Silêncios
assim são
ensurdecedores.
Silencie ante o silêncio. Sobretudo sob o de uma arma com
silenciador.
