General Motors anuncia ampliação da fábrica
gaúcha por meio de incentivos
públicos e renúncias fiscais. Impostos só retornarão
ao Tesouro em 2033
Por Maurício Boff
investimento
de R$ 2 bilhões no Complexo
Industrial Automotivo da General Motors
(GM) em Gravataí, na região Metropolitana
de Porto Alegre, foi anunciado oficialmente
pelo presidente da multinacional para o Brasil,
Jaime Ardila, ao presidente da República, Luiz
Inácio Lula da Silva, em Brasília, na metade de
julho. A promessa é de que a fábrica gaúcha
produza
dois novos modelos de automóveis,
triplicando, assim, a capacidade original da linha
de montagem para cerca de 380 mil veículos
por ano. A operação da unidade industrial
ampliada, que será a maior da empresa no país,
tem a previsão para começar em 2012, deve gerar
mil empregos diretos e 7mil indiretos. Como
aconteceu em 1996, durante a gestão do governador
Antônio Britto (PMDB) e data do anúncio
da vinda da multinacional para o Rio Grande
do Sul, a ampliação da fábrica gera polêmica
quanto ao modelo de financiamento e política
de isenção fiscal adotado para implantar o chamado
Projeto Onyx. Especialmente, em se tratando
da GM, uma empresa que precisou ser remodelada
nos Estados Unidos durante a crise
econômico-financeira internacional.
No anúncio oficial, Ardila garantiu que dos
R$ 2 bilhões, R$ 1,4 bilhão serão para o desenvolvimento
dos novos modelos e para a ampliação
da capacidade produtiva em Gravataí, que
já produz os modelos Celta e Prisma. O recurso
restante será destinado para outras unidades da
montadora no Brasil. O presidente da
multinacional ainda afirmou que cerca de 50%
dos recursos a serem investidos no novo projeto
virão dos próprios lucros da montadora. O superintendente
do Instituto Gaúcho de Estudos
Automotivos (IGEA), Paulo Fernando Ely, ressalta que as informações
não são precisas
até porque,
estrategicamente, a sucursal brasileira da
multinacional é de Capital limitado. Outras gigantes –
que negociam papéis na Bolsa de Valores –
oferecem uma maior visibilidade aos acionistas. “O
que se pode dizer é que cerca de R$
700 milhões estão em negociação com
o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) e o Banco do Estado do Rio Grande
do Sul (Banrisul) já garantiu o aporte de R$
344 milhões”, diz. Outra instituição
financeira
pública, o Banco Regional de Desenvolvimento
do Extremo Sul (BRDE), já se manifestou disposto
a emprestar dinheiro.
O economista da Fundação de Economia e
Estatística (FEE), Lívio Luiz Soares de Oliveira,
lembra que, em 1996, os termos da negociação
geraram intensos debates porque também envolviam
recursos públicos vultosos. O acordo previa
a concessão inicial de R$ 580 milhões (US$
310 milhões) em empréstimos oficiais para a compra
de terreno, obras de infraestrutura e capital
de giro, a uma taxa de juros de 6% ao ano, a
serem pagos a partir do ano de 2002. O protocolo
estabelecia a isenção de tributos estaduais durante
um período de 15 anos a partir da entrada
em funcionamento da fábrica, em 2000. O governo
também se comprometia a oferecer toda a
infraestrutura necessária para a operação,
como água, luz, gás natural e melhorias
no transporte público para o acesso à fábrica. “Houve
quem
disse que as condições do protocolo assinado entre
o Estado e a montadora foram ‘extremamente
generosas’”, afirma Oliveira. O economista lembra
que a discussão se deu em um cenário precário
das
finanças públicas estaduais, em que a pergunta era
se seria vantajoso ao Rio Grande do Sul entrar
numa guerra fiscal contra outros estados para
atrair empreendimentos de grande porte.
Prorrogação
de incentivos fiscais
por mais 15 anos
A governadora Yeda Crusius (PSDB)
enfrenta uma não menos complicada situação
do Tesouro Estadual. A tucana chegou
a anunciar o déficit zero, o que significa
não
gastar mais do que arrecadar, numa tentativa
de conter o ciclo vicioso de despesas
acima do limite possível. Mas a ampliação
da capacidade produtiva em Gravataí terá novamente
incentivos fiscais semelhantes aos que já existem
hoje para a fábrica
gaúcha,
mas com uma diferença. Atualmente,
100% da produção da unidade gaúcha
da
GM tem a prerrogativa de prorrogar por 15
anos o pagamento da principal fonte de arrecadação
estadual, o Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Pelo acordo anterior, o retorno dos recursos
aos cofres do Estado deveria ocorrer em
2014. A regra é parte do programa Fomentar
RS, instituído em 1997 como instrumento
público para receber a GM. “Para a ampliação,
a prorrogação valerá para 75%
das vendas”,
afirmou o vice-presidente da GM do
Brasil, José Carlos Pinheiro Neto, durante
o anúncio oficial. Isso significa que a GM
vai recolher 25% do ICMS imediatamente
após a venda dos veículos. Os 75% em
impostos
prorrogados terão dez anos de prazo
de carência e mais 12 anos para o pagamento.
Se a fábrica ampliada começar mesmo
a
operar em 2012, o imposto só retornará ao
Estado em 2033.
A Casa Civil encaminhou um projeto à Assembleia
Legislativa com o argumento de
dar transparência para os investimentos
públicos. Na prática, o projeto do
Executivo
estende o Fomentar RS alterado ao novo
anúncio da montadora. O líder da bancada
tucana, deputado estadual Adilson Troca
(PSDB), defendeu que o projeto encaminhado é
um avanço em relação ao do governo
Britto, que previa a isenção total,
e é parte da regra
do jogo. “Tenho certeza de
que mesmo a oposição não irá colocar
empecilhos
e irá aprovar a matéria”, salienta.
As bancadas de oposição se manifestaram
contrárias à proposta e apresentaram
emendas.
O deputado estadual Raul Pont (PT)
definiu a renúncia fiscal como um verdadeiro
suicídio a qualquer estado. O parlamentar
salientou que o Tesouro Estadual
deixará de arrecadar milhões por ano
em
ICMS (ver mapa). “Como se vai garantir
um mínimo para o sustento decente da Educação
pública?”, questionou.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br