
Aquele
olhar

Scott
Fitzgerald escreveu que nas vidas americanas
não havia segundo ato. É
uma das suas frases mais citadas, embora ninguém
saiba exatamente o que significa. Ele queria dizer
que vidas americanas não se beneficiam do adensamento
ou do esclarecimento da trama que o segundo ato costuma
trazer às peças teatrais? Ou – já que
escrevia na época
em que as peças tinham três atos – que os americanos
passam diretamente do seu começo ao seu triunfo ou fracasso
finais sem o estágio intermediário da reflexão?
Ou
que nas vidas americanas simplesmente não havia tempo
para arrependimento e regeneração? Seja como for, assistindo
a esse triste teatro em que se transformou o Senado
nacional, culminando com o ressurgimento das suas próprias
cinzas, como uma fênix com olhar de gavião, do
Collor, fiquei pensando na frase do Fitzgerald. Com uma
ligeira variação: nas vidas políticas brasileiras
não existe último ato.
Você imaginaria que um Sarney já tivesse dito a sua
fala de despedida e gente como Jader Barbalho tivesse
protagonizado seus dramas com início, meio e desenlace
conhecidos e saído de cena há muito tempo. Mas não,
continuam lá, e mandando. E quem imaginaria ver de
novo em cena o mesmo Collor que foi corrido do palco no
fim, ou no que parecia ser o fim, da sua performance trágica,
presumivelmente para a obscuridade ou para papéis
menores? Não se trata de negar a ninguém a possibilidade
da remissão e de outro começo, mas o mais triste disso
tudo é a pobreza que revela. Nossa pobreza, pois quem
elege tantos maus atores e sustenta uma dramaturgia
capenga em que o fim nunca é o fim e nada tem
consequência somos nós. Uma plateia decididamente tolerante
com esse grotesco teatral, um primeiro ato interminável.
O assustador na volta do Collor à frente do palco é que
aquele olhar furioso já foi credencial política.
Ele já foi visto como um “louco” no
bom sentido, decidido a acabar com a corrupção como um Jânio
Quadros com
melhor estampa e liberalizar a economia, custasse o que
custasse. Mais assustador do que o olhar do Collor, claro, é
pensar na facilidade com que, vez por outra, nos deixamos
enganar por esses artistas.
