AU, AURUM OU OURO: ISSO É PORTUGUÊS?
Vera Haas

Sim isso também é língua portuguesa, e do Brasil! Aparentemente, o símbolo Au, presente em qualquer tabela de química, nada tem a ver com o material que designa, o ouro. Da mesma forma, muita gente não relaciona o nome da Argentina ao rio do Prata, que banha aquele país. Mas, entre a palavra prata e o nome Argentina, há a palavra argentum, expressão com a qual o latim clássico indicava a prata, da mesma forma que aureus indicava o ouro.

Falamos constantemente sobre a necessidade de aproximação entre os conteúdos desenvolvidos nas universidades e aqueles desenvolvidos nos níveis médio e fundamental. Trata-se de uma preocupação plausível porque cada vez mais esses três níveis de ensino parecem estar atuando como se não houvesse uma relação entre os conhecimentos desenvolvidos em cada um. E quando pensamos nos conhecimentos referentes às línguas clássicas, a situação fica mais grave. De que modo disciplinas como o latim e o grego podem contribuir para a formação de profissionais de línguas que atuem em qualquer setor? De que modo a disciplina de Filologia – não a conhecida filosofia! – pode ser significativa em uma aula de português?

Ao ingressar como docente no UniRitter, recebi, junto com a disciplina de latim, a de Filologia. Comecei a repensar a disciplina pela qual me apaixonara quando estudante de Letras Clássica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Como passar aos estudantes, tão ligados ao mundo moderno, a importância dessa disciplina. No latim já desenvolvera recursos atrativos e, ao mesmo tempo, adequados ao conteúdo, como o uso de músicas do conjunto Era, da Enia ou ainda de grupos de rock: muitas letras apresentam estrofes em latim ou a letra inteira em latim. E tratava-se de letras que podem ser lidas ou nos níveis iniciais do latim, ou em níveis mais avançados. Na época em que me propus essas reflexões sobre a Filologia, ainda era sucesso o filme O sexto sentido. Lembrei-me de Sociedade dos Poetas Mortos. Resolvi que as provocações feitas aos estudantes de Filologia envolveriam propaganda, filmes e música.

Em uma sexta-feira ensolarada, às 15h, reuni-me com os alunos na sala de TV. Até o momento, havíamos estudado alguns elementos de filologia clássica, ou seja, trabalhávamos concepções e formas que iam do grego ao latim clássico. Estávamos apenas iniciando os estudos do latim vulgar e da România Medieval. Em aula, os alunos já percebiam que os seus estudos estavam diretamente ligados ao cotidiano. Naquele momento, Dóris de Castro - nossa aluna na instituição e professora engajada em um ensino formador de sujeitos - já levara a discussão sobre a expressão mapa mundi para dentro da sua escola e a turma da boemia conhecia a tradução de Natu Nobilis.

Bem, nessa sexta-feira, assistimos um trecho do filme Sociedade dos Poetas Mortos. Assistimos ao momento em que o novo professor provoca seus alunos e, depois, os aconselha: Carpe diem. Após, discutimos o filme e as cenas vistas. Situei os alunos historicamente no que se refere à expressão latina Carpe diem, que já se tornara o nome de um perfume do Boticário. Sai de Horácio a fui até as concepções do Romantismo. E entreguei aos estudantes o seguinte texto:
 

Leia com atenção:

Scutum, machina, tormentum, bellum, sagitta, equus, rex, regina, villa, domus, hodie, feriae, ludus, eros, lupa, cupido, cura, cosmos, mundus, urbs, via , poena, nonsense, crimen, muto, rota, moneta, vipera, apicla, capere, sapere, sapientis, amantis, amanda, audientis, perfectus, octogenarius, octo, octavus, filia, filius, familia, pater, mater, puer, planus, pluvia, plumbum, Geia/Gaia, Genii, Crono, Cupido.

Essas palavras lembram algo? Recordam sentidos?

E essas:

Natu nobilis, Carpe Diem, in loco, statu quo, sricto sensu, lato sensu, deleta, spectrum, Omega, Quantum.

Bem, agora:

Escolha uma série entre sétima do ensino fundamental e segunda do ensino médio. Crie um modo interessante de utilizar seu conhecimento sobre o processo de romanização evidenciado pela filologia para uma melhor compreensão da língua portuguesa. Para esse fim, organize um plano de aula, explicite os objetivos e detalhe o trabalho a ser realizado pari passu. Os textos e exercícios que você vai usar devem estar anexos ao plano de ensino.

Como o interesse do trabalho é construir vínculos que desmistifiquem o português através de um saber histórico da língua, a aula (ou as aulas) deve partir de elementos que despertem o interesse dos alunos e que sejam necessários aos mesmos enquanto sujeitos no uso de sua língua materna.

A data de entrega deste trabalho é 13/12/2001.

Bom trabalho, ab imo corde.

 

Novas discussões foram feitas a partir do texto, sempre relacionando o que estudávamos com a nossa realidade do dia-a-dia. Afinal, hoje cada vez mais estamos ligados à tecnologia, nomes como deleta, spectrum, enter e nascituros fazem parte de nossa vida. Ao mesmo tempo, a propaganda vem se utilizando cada vez mais de recursos lingüísticos e imagéticos vindos do latim. Nomes como Ômega, Carpe diem ou Natu Nobilis estão carregados de imagens e dizem respeito aos desejos do homem moderno. Além disso, a propaganda ganha destaque dentro da poluição visual de nosso mundo, pois está utilizando não apenas outra linguagem, mas outra língua – que guarda semelhanças com as línguas modernas e, por vezes, parece ser totalmente diferente. Por outro lado, as artes parecem estar se apropriando do latim, uma vez que aparecem eivadas de expressões na antiga língua dos romanos, não apenas de modo retórico, como também enquanto elementos importantes na trama da obra de arte. Basta lembrarmos O sexto sentido e a frase dita no interior da igreja, o livro de Umberto Eco, O nome da rosa e a ópera rock de Legendary Tales, em que a letra épica tem, na conclamação contra as forças do mal, versos em latim sob o interessante título Ira tenax. Assim, o brasileiro que não é ao menos iniciado em elementos greco-latinos fica alijado de parte do processo de leitura do mundo contemporâneo.

Frente a tudo isso, naquela tarde, o grupo concluiu que os conhecimentos históricos que ligam o latim, o grego e o português deveriam estar inclusos nos conteúdos dos ensinos médio e fundamental. E mais, eles deveriam ser extensivos à tabela periódica da química, aos conteúdos de história, aos nomes científicos da biologia, e assim por diante. As atividades que envolvem os elementos greco-latinos propiciam trabalhos interdisciplinares, ultrapassando a esfera das aulas de língua portuguesa.Despedimo-nos para o fim de semana, eles entusiasmados e eu também. Mas nada se compara ao que aconteceria a partir daí.

Na aula seguinte, na terça-feira, recebi poemas recortados de jornais com textos em latim da Dóris. O Danilo Medeiros sabia que Fiat lux era latim, a Fernanda Farias anotara as frases de uma igreja e a Juliana Cruz tinha descoberto várias lojas com nomes em latim. A Cláudia Paiva, já uma dinâmica professora do ensino fundamental, descobriu que as mágicas do Harry Potter eram latim e resolveu ensinar as mais parecidas com o português, após a contação da história do pequeno bruxo. Todos eles estavam relendo Porto Alegre e o seu próprio cotidiano. O assunto contagiou o UniRitter e acabamos recebendo contribuições de professores e alunos de outras disciplinas. Convém ressalvar que Juliana foi a nossa fotógrafa, responsável pelo levantamento de fotos da cidade de Porto Alegre em que encontramos o latim, as atividades pensadas por Cláudia foram um sucesso na escola, Diego Petrarca – o poeta – estimulou os colegas e auxiliou-nos a construir um texto que falasse sobre a Filologia, mas em forma de poesia.

O passo seguinte foi a concepção e a construção de uma exposição que desse vida a essa reflexão toda. A parceria com o então estudante de arquitetura Guilherme Werle deu vida ao nosso trabalho. Werle concebeu estruturas de metal e espelhos, estruturas de reflexos: a circularidade da língua ganhava expressão. Ao mesmo tempo, os alunos e eu montamos um histórico de nossas aulas e de todos os materiais reunidos, a fim de podermos oferecer, ao professor que se interessasse, idéias para trabalhos que envolvessem os elementos greco-latinos. A poesia elaborada a partir de nossas reflexões tornou-se o cartaz de apresentação da Exposição Reflexus.

Hoje coordeno um projeto de pesquisa em que atividades didáticas são repensadas com os docentes dos ensinos fundamental e médio, criando um Banco de Dados em que reúno os materiais elaborados na pesquisa e os resultados dos mesmos em sala de aula. Em momento algum, nós, as alunas pesquisadoras e eu, entramos em sala de aula. Sempre partimos da conversa com os professores, daquilo que eles nos trazem como a sua realidade didática. A partir daí retomamos concepções como raiz, radical e afixos e trazemos à tona os elementos greco-latinos, evidenciando-os na vida moderna. Paralelamente, estamos desenvolvendo oficinas - com materiais ligados ao Harry Potter e ao Asterix, por exemplo - para a exposição e discussão pública da pesquisa, com o intuito de despertar uma discussão sobre a exclusão social que o desconhecimento dos elementos greco-latinos pode provocar hoje.

O que trouxe o latim à baila? O que o colocou, nos últimos anos, na voz de músicos, na máquina dos escritores ou na mídia? Penso que tudo isso tem algo a ver com a queda do muro de Berlim e com a globalização cultural. Em um mundo em que precisamos repensar os sistemas políticos que não foram suficientes para nossa sociedade e em que as culturas e as línguas se misturam, destruindo divisas culturais, o latim parece surgir em uma condição mais próxima da Idade Média do que da Antigüidade Clássica, fazendo-nos refletir sobre a mistura de línguas e de imagens como elemento constitutivo do mundo moderno contemporâneo.

Ainda hoje, no UniRitter, a disciplina de Filologia provoca sempre os alunos nesse sentido: como a filologia pode contribuir para um ensino fundamental e ou médio que prepare o aluno para ser um leitor desses elementos greco-latinos, tornando-o sujeito da sua língua materna e das linguagens presentes em seu dia-a-dia? E cada vez mais os alunos do Centro Universitário estão engajados nessa proposta, inclusive porque essa disciplina ocorre no sexto semestre do curso, momento em que os estudantes já agregaram vários conhecimentos de lingüística e de literatura, necessários para que a filologia faça sentido – não podemos esquecer que essa disciplina nasceu em um mundo em que os conhecimentos eram vistos em seu conjunto, os filólogos eram também estudiosos de língua, de literatura e de filosofia, por exemplo.

Nesse semestre, em particular, as disciplinas de Filologia e de Didática do turno da tarde desenvolveram uma parceria muito produtiva: os trabalhos criados na Filologia foram desenvolvidos nas duas disciplinas, assim os alunos tiveram a orientação de conteúdos e de didática simultaneamente, sobre um mesmo projeto. E o trabalho apresentado na aula de Filologia transformou-se na prática docente dos estudantes, com a supervisão da professora Loiva Blum, nesse momento responsável pela disciplina de Didática. Com essa parceria, os trabalhos que eram apresentados apenas na Filologia ganharam presença em uma sala de aula. Claro, alunos já professores como a Cláudia e a Dóris já haviam aplicado os conteúdos debatidos na Filologia em suas escolas, e com bons resultados. Mas dessa vez, toda a turma pode experienciar a concretização da atividade em uma aula.