Este espaço tem por objetivo
reunir informações sobre as diversas frentes de
atuação do Sindicato e proporcionar uma visão
privilegiada dos diferentes panoramas da educação
privada no RS.
O agravamento da crise enfrentada
pela Unicruz foi debatido em audiência
pública na Comissão de Serviços Públicos
da Assembléia Legislativa. A
sessão realizada no dia 16 de novembro
contou com as presenças do subprocurador-geral de
Justiça, Mauro
Renner, do promotor de Cruz Alta,
Daniel Cozza Bruno, do prefeito do
município, Vilson Santos, e do presidente
da Câmara Municipal de Cruz
Alta, vereador Jerry Glun. Também
participaram da sessão o pró-reitor de
Administração da Unicruz, José Ricardo
Libardoni dos Santos, o diretor do
Sinpro/RS, Amarildo Cenci, representantes
do Sinteep, professores e funcionários
da Universidade.
No entendimento do Sinpro/RS, a
instituição contém vícios no
ordenamento
jurídico, pois seu estatuto permite
que uma mesma pessoa exerça a
presidência da Fundação Unicruz, do
Conselho Curador e seja também o
reitor. Por ser comunitária, a Unicruz
tem um papel decisivo no desenvolvimento
da região. Mas devido a problemas de gestão,
que vêm sendo
alertados há pelo menos cinco anos pelos
professores e funcionários, a instituição
descumpre esse papel e não investe
na sua atividade-fim, ou seja, em
ensino, pesquisa e extensão. Os professores
e funcionários estão mobilizados
e se mostram comprometidos com o
futuro da Universidade. Os grupos de
trabalho estão empenhados em ajudar
a construir uma saída para a Unicruz.
A comissão de Serviços Públicos
decidiu apoiar o trabalho de investigação
do Ministério Público e a reestruturação
que democratize a Fundação e
a Universidade. Também foram encaminhadas
audiências com o governo estadual
e Ministério da Educação; formação
de uma comissão de deputados
para acompanhar a situação da Unicruz
e dar ampla divulgação aos resultados
da audiência. Uma proposta de renegociação
das dívidas da instituição foi apresentada à
direção do Banrisul, que
concordou em não executar as dívidas
da instituição nesse momento de reestruturação.
REESTRUTURAÇÃO
Protagonismo
e superação
A construção de uma Unicruz verdadeiramente
comunitária e comprometida com o Ensino, a Extensão
e a Pesquisa, não pode prescindir da participação
de professores e funcionários na articulação
e decisão de seus rumos. Esta instituição,
desafiada
a ressurgir da crise, deve ser capaz de prestar contas à
comunidade na qual está inserida e também aos
seus professores, funcionários e alunos. Para
assegurar que a Unicruz possa projetar um
crescimento futuro, se faz urgente uma efetiva
reestruturação. São necessárias
providências para
que a Universidade não venha a ser novamente
objeto de disputa política e de interesses dissociados
dos seus objetivos enquanto instituição comunitária.
Essa é a convicção que tem pautado todas
as
assembléias e encontros do Sinpro/RS com
trabalhadores e dirigentes.
O momento é extremamente difícil para a instituição,
o que tem exigido por parte dos professores e
funcionários enormes sacrifícios. Os trabalhadores
não têm fugido à responsabilidade de
assumir junto
aos seus sindicatos a tarefa de transformar a
Universidade.
A luta e a coragem dos trabalhadores da Unicruz
têm feito com que venham a público os atos de
uma
gestão que insistia em negar os problemas reais que
estavam conduzindo a instituição à insolvência.
Esse
processo fez com que muitos professores e
funcionários aos poucos superassem a cultura do
medo e da perseguição que marcaram a história
da
Unicruz, e conquistassem o verdadeiro protagonismo
e compromisso com a transparência. Assumiram
com isso o pacto com a continuidade de um projeto
que não pertence a um grupo, mas a toda a
comunidade regional.
Esse protagonismo desafiou agentes públicos, a
exemplo do Ministério Público, a assumir exemplarmente
a sua função enquanto órgão fiscalizador
e
responsável pela Fundação Universidade
Cruz Alta.
E tem mostrado que não haverá soluções
mágicas
para a crise da Unicruz, senão um amplo e doloroso
período que vai exigir esforços de todos os
segmentos
comprometidos com a Universidade.
Os gestores que passaram no último período
pela
instituição provocaram uma situação
de crise em
função de sua extrema irresponsabilidade frente à Unicruz,
ameaçando inclusive a sua continuidade.
Agora, a Universidade terá que passar por uma
profunda reestruturação administrativa. Uma
nova
cultura deverá permear as mudanças com a
participação de todos. A experiência
vivida pela
Unicruz deve ter um efeito pedagógico para tantas
outras instituições que têm apostado
em protelar a
aplicação de instrumentos eficazes de controle
e
transparência administrativa.
Da parte do Sinpro/RS, cumpridor e ciente da sua
autonomia, não serão medidos esforços
na defesa
dos direitos dos seus representados e na construção
de um futuro próspero para a Unicruz, compromisso
que passa pela responsabilização de todos aqueles
que levaram a instituição à atual situação.
HISTÓRICO
Crise
anunciada e mobilização
A crise administrativa da Unicruz vem se agravando
desde março deste ano, embora os professores, através
do Sinpro/RS, venham alertando há pelo menos cinco
anos para o risco de comprometimento do futuro da
Universidade por conta de atos administrativos distanciados
das atividades-fim da Universidade. Confira o histórico
da mobilização dos trabalhadores da Unicruz e os
principais acontecimentos desde março deste ano, que
culminaram com a intervenção do Ministério Público
na
Unicruz, afastamento temporário do grupo que administrava
a Universidade e realização de auditoria contábil
pelo Ministério Público por solicitação
do Sinpro/RS.
No início do ano, em meio às negociações
para atualização
dos salários atrasados desde outubro de 2004, os professores
são surpreendidos por uma série de demissões.
Os
professores realizam assembléia no início de março
para deliberar
sobre as demissões, cujas indenizações não
foram pagas
e também sobre a dívida das multas por atrasos de salário
nos meses de janeiro de 2001 a 2004, devidas para a totalidade
dos docentes. Em reunião com os professores demissionários,
a Reitoria propôs o parcelamento em dez meses do
pagamento das verbas rescisórias, o que foi rejeitado pelos
trabalhadores.
Em solidariedade aos trabalhadores que foram demitidos
sem receber as verbas rescisórias, os docentes do quadro da
Unicruz, reunidos em assembléia, aceitam a proposta de parcelamento
das multas relativas às ações do Sinpro/RS na
Justiça do Trabalho, referentes aos atrasos de pagamento. O
valor devido pela Universidade, equivalente a duas folhas de
pagamento, seria pago, conforme proposta, em oito parcelas.
O parcelamento das dívidas foi condicionado à atualização
dos salários, com pagamentos até o dia 10 de cada mês.
Nada disso foi cumprido pela Unicruz.
A única resposta da Reitoria foi a disponibilização
de empréstimos
bancários consignados, o que não configurava
solução efetiva para o problema, mas um paliativo. No
dia 20
de abril, pela manhã, a direção do Sindicato teve
uma audiência
com a Justiça do Trabalho de Cruz Alta, quando foi solicitado
ao Judiciário que se empenhasse em cobrar o cumprimento
do acordo para o pagamento de atrasados de anos
anteriores devidos aos professores, bem como acompanhar o
processo para executá-lo em caso de descumprimento.
Diante dos atrasos salariais, descumprimento dos acordos
e sem que a Reitoria acene com uma proposta consistente
para resolver o impasse, os professores aumentam a mobilização
nos meses seguintes. Além da questão salarial, os
trabalhadores exigiam da Reitoria um plano de viabilidade
para a Universidade. Cada vez mais endividada e destinando
a quase totalidade da receita para pagamentos dos serviços
das dívidas e outros gastos em desacordo com a suas atividades-fim,
a Unicruz começa a dar sinais de desgaste. O alerta é levado às
assembléias e à comunidade.
Em setembro, com a adesão dos funcionários da Universidade,
que também amargam os atrasos salariais e os riscos
de demissões, a mobilização coloca em xeque a
administração
da Unicruz. A partir da assembléia do dia 5 de setembro,
os professores promovem paralisações de um dia e, no
limite
de uma realidade que requer a responsabilidade de todas as
partes, se propõem a pactuar um novo acordo de parcelamento
das dívidas.
Na assembléia do dia 13 de setembro, depois de um dia
de paralisação que contou com a adesão da totalidade
dos
professores e funcionários, os trabalhadores rejeitam uma
proposta da Reitoria, que propõe a atualização
das dívidas
em parcelas que se estenderiam até janeiro de 2006. E
decidem pela continuidade do movimento. Professores e
funcionários fizeram caminhadas, encontros e manifestações
durante todo o dia. Os acessos ao campus foram fechados
pelos manifestantes e a grave situação da Unicruz chegou
ao
conhecimento da comunidade. A grande maioria dos professores
da Unicruz vinha recebendo seus salários nos últimos
meses na forma de empréstimos bancários avalizados e
não
pagos pela Universidade.
Depois de dois dias de mobilização, uma proposta de acordo
estabelece um calendário de pagamento dos salários
atrasados. A proposta apresentada pela Universidade e aprovada
em assembléia dos trabalhadores em 14 de setembro
previa o parcelamento das dívidas entre setembro e novembro.
O acordo foi condicionado ao pagamento das multas por
atraso nos salários; ao não desconto dos dias parados;à estabilidade no emprego para funcionários e docentes até dezembro; e ainda à assinatura
de um termo de compromisso por parte da instituição em
honrar o acordo pelo qual os
professores contraíram empréstimos bancários consignados
não pagos pela Universidade.
Esse acordo, homologado na Justiça do Trabalho e
relatado ao Ministério Público pelo Sinpro/RS e Sinteep,
também não seria honrado pela Reitoria. Além de
ingressar
em juízo solicitando a execução do acordo judicial,
o
Sinpro/RS propõe uma auditoria externa nas contas da
Unicruz, o que é aprovado pelo Ministério Público.
Refém dos bancos
Na assembléia do dia 10 de outubro, os trabalhadores decidem
pela continuidade da paralisação diante da confirmação,
pela Reitoria, de que os salários de agosto não seriam
pagos no
prazo estabelecido pelo acordo. A mobilização contou
com a adesão
da totalidade dos professores e funcionários da Universidade.
Eles distribuíram carta aberta à comunidade reafirmando
as razões do movimento e cobrando um posicionamento da
Reitoria em relação à crise. Na sexta-feira, 15
de outubro, vencia
a parcela referente a multas de salários atrasados de 2004 que
também não foi paga. Dois dias depois, em nova assembléia,
os
trabalhadores decidiram suspender a paralisação e encaminhar à
Reitoria uma agenda para a reestruturação econômico-financeira
da instituição.
Isso porque a auditoria externa demonstra o que a maioria
dos professores e funcionários já sabia e vinha alertando
através
dos seus sindicatos: a instituição está à beira
de um colapso
administrativo, com dívidas bancárias e trabalhistas
que totalizam
cerca de R$ 39 milhões. Os auditores também apontam
excessos de gastos que não priorizam as atividades a que se
destina a Universidade, ou seja, não há investimentos
em Ensino,
Extensão e Pesquisa. O levantamento de janeiro a agosto
revela que a Reitoria gastou neste período nada menos que R$
40 mil em flores, viagens e fogos de artifício. O passivo da
Universidade com INSS, FGTS e Receita Federal ultrapassa R$
8 milhões. As dívidas com os bancos totalizam R$ 16 milhões.
Os
juros e comissões bancárias, tarifas de cobrança,
emissão de
extratos e talões de cheques, serviços e encargos sobre
cheques
caucionados consomem mais de R$ 2,5 milhões. Um outro
exemplo de descontrole de gastos são as despesas com marketing,
que totalizaram R$ 760 mil em apenas oito meses. É importante
lembrar que essas informações resultam do cruzamento
de
dados contábeis fornecidos pela própria Reitoria à época.
EMPRÉSTIMOS
Vetada
inclusão
de professores
no SPC e Serasa
Os professores da Unicruz, que tomaram
empréstimos bancários consignados com a
Universidade para ter acesso aos salários -
e ficaram como devedores dos bancos
quando as parcelas deixaram de ser pagas
pela instituição, não poderão ter
seus nomes
incluídos nas listas de proteção ao crédito
pelas instituições bancárias. A determinação é
da Justiça do Trabalho, que ampliou o
pedido de tutela antecipada apresentado
pelo Sinpro/RS em ação trabalhista e que já havia vetado a outras instituições a inclusão
de professores da Unicruz no cadastro de
proteção ao crédito (SPC e Serasa).
Prioridade
para o pagamento de salários
Após a intervenção do Ministério Público
e nomeação do presidente do Conselho
Curador, os professores e funcionários realizaram
assembléia para dar continuidade à proposta
de reestruturação econômico-financeira
apresentada à Reitoria e ao MP. A
proposta prevê uma série de medidas para
cortar custos e garantir a viabilidade da instituição,
com acompanhamento de comissões
Econômica e de Reforma Estatutária.
Foi estabelecido prazo para que a Reitoria
apresente uma proposta de recuperação
da Universidade com resultados a
curto prazo e destinação das receitas da instituição
para a folha de pagamento. Os trabalhadores
da Unicruz estão desde março com
os vencimentos atrasados e parte dos docentes
não recebe salários diretamente da
Unicruz desde outubro do ano passado. Além
disso, 16% dos professores têm cerca
de R$ 1,1 milhão em resíduos salariais a receber
desde março. Os salários de agosto e
setembro não foram pagos e falta 50% da
folha de outubro.
Além do prazo para apresentação de
uma proposta de recuperação salarial, com a
definição de critérios para os descontos em
folha, datas dos pagamentos e valores a
serem cumpridos pela nova Reitoria, os professores
e funcionários decidiram manter-se
em assembléia permanente. Nesse período, as comissões
Econômica
e Financeira e de Mobilização apresentaram avaliações
semanais do
projeto de recuperação da Unicruz e da auditoria externa
executada
pelo Ministério Público por solicitação
do Sinpro/RS.
Diário Serrano - 10 e 11 de novembro
MP
aponta gestão temerária
Uma auditoria externa proposta pelo Sinpro/RS aponta dívidas
de R$ 39 milhões. Há quase seis meses o pagamento
dos
salários está em atraso. A Universidade teve quatro
integrantes da Reitoria afastados pelo Ministério Público
do município no
dia 7. O presidente do Conselho Curador da Fundação
Unicruz assumiu provisoriamente a reitoria. A ação
de afastamento dos
integrantes da Reitoria ajuizada pelo Ministério Público
está baseada em denúncias públicas, inconsistência
na prestação de
contas, gastos excessivos constatados em auditorias, descumprimento
de acordos legais e oneração do patrimônio
público.
Esses indícios foram suficientes para a abertura do inquérito
judicial e afastamento provisório da diretoria. À medida
em que
avançam as investigações, mais dívidas
estão sendo constatadas pelo MP, como um empréstimo
em nome da Fundação
Unicruz no valor de R$ 800 mil, compra de títulos da dívida
pública e prestação de serviços por
empresas fantasmas ou
massas falidas. Além da inconsistência dos dados
contidos nas prestações de contas, a Promotoria
encontrou indícios de
irregularidades como a transferência para a Universidade
de encargos da Fundação Erico Verissimo, que foi
assumida
arbitrariamente pela Fundação Unicruz. Também
foram constatados gastos excessivos apesar da alegação
de crise financeira.
Medidas do Ministério Público e Auditoria
solicitada pelo
Sinpro/RS tiveram ampla cobertura no Diário Serrano,
de Cruz Alta, nas edições dos dias 8, 9 e 10 de novembro